Conflito de interesses: o inimigo oculto dos seus investimentos

por Luciano Tavares

Imagine a seguinte situação: você decide fazer uma viagem em família. Para ajudá-lo na tarefa de escolher um lugar de acordo com suas necessidades, sua opção é falar com um agente de viagens. Ele garante que o resort indicado é o mais adequado e se encaixa perfeitamente com seu objetivo: contar com um lugar tranquilo para relaxar com seus familiares.

Em vez de pesquisar informações sobre o resort, você simplesmente confia na opinião supostamente isenta do agente de viagens, afinal ele é um especialista. Mas os problemas começam a aparecer ao chegar ao local. Diferentemente do que foi mencionado na hora da compra, o hotel fica no agitado centro da cidade e ainda abriga um dos clubes noturnos mais badalados da região. Ou seja, a viagem tranquila acaba tornando-se um martírio. Como se não bastasse isso, no último dia da viagem você descobre que um dos sócios do hotel é primo do agente de viagens. Desta forma, ele recebe comissões extras ao vender aqueles pacotes.


O que significa conflito de interesses

A situação descrita acima é o clássico conflito de interesses, que passa sem que você o perceba. Na prática, ele ocorre quando um profissional, ao vender determinado produto ou serviço, coloca seus objetivos pessoais à frente das necessidades do cliente. Geralmente, as ofertas são as mais atraentes possíveis, sempre com a proposta de persuadir as pessoas. Como no ditado, quando a esmola é demais, o santo desconfia. Nessas situações, o prestador de serviços, que teoricamente deveria oferecer um atendimento isento e imparcial, acaba usando o cliente para alcançar suas metas.

Quais os conflitos mais comuns nos investimentos?


Recomendar produtos geridos ou emitidos pela própria instituição ou empresa do grupo

Cenas como essa ocorrem em diferentes áreas, inclusive nos investimentos, em que o conflito de interesses pode ser um dos seus piores inimigos ocultos. Um exemplo comum é o gerente do banco oferecer produtos financeiros que, na maioria dos casos, não são os mais adequados ao seu perfil e às suas necessidades, além de contarem com altos custos e rentabilidades nada atraentes. Aplicações de renda fixa, como CDB (Certificados de Depósito Bancário), LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) de grandes bancos costumam ter rendimentos inferiores aos títulos oferecidos por instituições de médio ou pequeno porte.

Cabe lembrar que isso não ocorre apenas nos grandes bancos de varejo. Diversas corretoras de valores oferecem ao investidor seus próprios produtos financeiros ou fundos de investimento a partir de uma gestora de fundos que pertence à mesma empresa. Ou seja, quem sai ganhando é a corretora, que consegue engordar as vendas, e não o investidor, que fica à mercê das aplicações financeiras oferecidas.


Receber comissões dos produtos de terceiros ou por transações realizadas


Também é comum que corretoras recebam comissões de produtos que recomendam, por exemplo, fundos de investimento de outras instituições financeiras. Na prática, os produtos indicados podem ser aqueles que renderão uma comissão mais generosa para o profissional da corretora ou agente de autônomo de investimentos.

Esse tipo de conflito de interesses não ocorre apenas quando se pensa em fundos de investimento e títulos de renda fixa. O investidor em ações também pode passar por esse tipo de ingerência e, eventualmente, perder dinheiro com suas aplicações na bolsa de valores. Corretoras independentes e de grandes bancos cobram taxas por cada transação realizada no mercado de ações. Isso significa que, em diversas oportunidades, pode ocorrer um incentivo para que você realize várias operações, pagando taxas de corretagem sucessivas.

A tática – que obviamente só garante retorno à corretora – não leva em consideração a estratégia de escolher ações com cautela e manter a aplicação com foco no longo prazo, combinação que tende a ser muito mais efetiva do que trocar os papéis a cada movimento do mercado financeiro. Essa estratégia é conhecida mundialmente como “buy and hold” e fez com que grandes investidores, como o americano Warren Buffett tivesse sucesso nos investimentos.


Remunerar profissionais por metas atreladas a vendas


Além das comissões recebidas pelo banco ou pela corretora, os profissionais que trabalham nas instituições financeiras também são remunerados conforme suas vendas. Para bater a meta do mês, os gerentes de bancos, por exemplo, costumam indicar os produtos que engordarão mais suas comissões. Oferecidos como o melhor jeito de formar uma poupança, os títulos de capitalização são um dos “queridinhos” dos gerentes. Além de não ser uma modalidade de investimento, esse tipo de produto rende pouco ou quase nada e basicamente serve como um papel comprado em loteria, em que se depende da sorte para ganhar dinheiro.

Nas corretoras, os agentes autônomos de investimentos ou os assessores internos também são comissionados, ou seja, recebem dinheiro extra conforme os produtos que vendem. E mais uma vez cabe lembrar que as aplicações oferecidas podem ser as que vão encher o saldo da conta bancária dos profissionais, e não os investimentos mais adequados aos seus objetivos.

Você paga essa conta

Não é preciso pensar muito para concluir que, quando tem conflito de interesses envolvido, quem paga a conta é você. Em vez de contar com a carteira de investimentos mais alinhada com seu perfil de risco, você acaba contratando aplicações com as maiores taxas ou produtos de baixíssima qualidade. Nessa conta, entram títulos de renda fixa com rentabilidade minguada, planos de previdência privada com altíssimas taxas de administração e de carregamento, além de fundos DI com taxas superiores a 4%, além dos títulos de capitalização, que na prática são como bilhetes de loteria. Tudo isso faz com que seus objetivos de vida fiquem mais distantes e difíceis de serem alcançados.

Como minimizar o conflito?

O primeiro passo é buscar profissionais com modelo de remuneração isento, ou seja, que não recebem comissões ou taxas “por fora”. Vale lembrar que as consultorias de investimento são proibidas pela xerife do mercado de capitais, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), de receber comissões por produtos recomendados. Os consultores têm como objetivo orientar o investidor a montar a carteira de aplicações mais adequada aos seus objetivos e suas necessidades, conforme Instrução 43 da CVM, que regulamenta a atividade.

Outro detalhe é que o cliente paga uma taxa de consultoria anual baseada apenas no valor aplicado, e não conforme os investimentos recomendados. O resultado é a seleção de produtos com alta qualidade e mais alinhados aos seus objetivos, seu perfil de risco e sua necessidade de liquidez. Em outras palavras, a consultoria não está preocupada em vender produtos e ganhar comissões em cima dessas vendas, mas sim em estabelecer a carteira de investimentos que mais tenha a ver com o que você precisa e deseja, além de ser uma cesta de aplicações muito mais barata que a oferecida pelos bancos.

Nesse sentido, os serviços automatizados de investimento se apresentam como uma opção ainda mais isenta, afinal o processo de seleção dos ativos que vão compor seu portfólio de aplicações é feito de forma transparente e de maneira automatizada. Com o poder dos algoritmos, esse sistema analisa milhares de ativos financeiros em busca da cesta de produtos que ofereça uma combinação de maior rentabilidade com menores riscos, taxas e impostos. E como isso tudo ocorre via computador, você evita tomar decisões a partir de recomendações de um assessor financeiro, que na maioria dos casos é subjetiva e pouco transparente.

Em vez de deixar o trabalho de onde investir nas mãos de um profissional preocupado com metas a bater no fim do mês, como o exemplo do agente de viagens que pensou apenas na própria comissão, o melhor caminho é contar com um serviço que realmente vai analisar suas necessidades e traçar um plano de investimentos condizente com seu perfil. Com a transparência garantida pelas consultorias, o conflito de interesses passa longe e quem sai ganhando é você.

Luciano

Luciano Tavares é fundador e CEO da Magnetis. Administrador de carteiras credenciado pela CVM e planejador financeiro CFP ®, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

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