Como criei uma fintech para melhorar os investimentos dos meus amigos

por Luciano Tavares

Após uma breve pausa, o Desafio Fintech está de volta!

Já contei o grande plano e minhas primeiras experiências no desafio de migrar todos os meus serviços financeiros tradicionais para fintechs.

Chegou a vez de falar sobre investimentos.

O problema é que dessa vez não posso simplesmente fazer um teste, como fiz com os seguros, e contar o resultado para vocês. A história começa bem antes.

Sempre trabalhei no mercado financeiro. Ao longo dos anos, meus amigos que trabalhavam em outras áreas sempre vinham me pedir conselhos sobre investimentos. Vira e mexe eles caíam em armadilhas porque alguém se aproveitava do fato deles serem leigos na área.

"Isso está errado. Todo mundo deve conseguir investir bem o seu dinheiro", eu pensava.

Foi aí que resolvi montar uma empresa...

Como toda a história começou​

Comecei minha carreira como estagiário em um banco de investimentos, o Merrill Lynch. Era 1994.

Eu trabalhava na mesa de operações de derivativos. Como qualquer pessoa que atua diretamente no mercado financeiro, tinha restrições para operar com meu próprio dinheiro. (Essa regra existe para evitar o uso de informações privilegiadas em benefício próprio.)

Lembro bem quando recebi meu primeiro bônus.

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Bônus! Bônus! 😀

Fiquei animado para investir e colocar meus conhecimentos na prática!

Mas, como tinha restrições para operar, me contentei com um fundo de investimentos do banco onde eu recebia meu salário.

Foi frustrante. As opções de produtos eram limitadas e os custos, altos. Pude apenas argumentar com o gerente e aplicar em um fundo com taxa de administração um pouco mais baixa e histórico de rendimento melhor.

Investir em um fundo
'premiado'? Só para quem
aceita rentabilidade baixa...

Nessa época, lembro de um encontro com meus colegas da faculdade. Todos estavam animados com seus primeiros salários e bônus. Começamos a falar sobre investimentos até que meu amigo Guilherme, que estava trabalhando com marketing em uma multinacional, contou - todo animado:

- Investi em um fundo muito legal! Sorteia um carro por semana. Indicação do gerente.

Fui dar uma olhada e percebi que o fundo "premiado" tinha a maior taxa de administração do mercado! Fiz o alerta para Guilherme:

- Sai dessa armadilha! Sabe por que o fundo consegue sortear carros? Porque está lucrando demais com as taxas pagas pelos clientes. É você quem está pagando a conta!

Essa situação não mudou muito desde então. Quem investe em um fundo "premiado" do varejo hoje tem rentabilidade muito abaixo do CDI, ainda que a estratégia do fundo seja completamente conservadora e de renda fixa:

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Não vou citar o nome do banco, mas um fundo "premiado" rendeu 9% nos últimos 12 meses, contra 14%  do CDI. (Fonte: Lâminas de Fundos/Magnetis)

Investir: fácil para mim, complicado para meus amigos

Passei seis anos trabalhando no Merrill Lynch até sair para empreender na área de tecnologia. Deixei de ter restrições para operar no mercado financeiro e logo abri uma conta em uma corretora.

Fiquei animado de novo!

Era o início da era dos home brokers (plataformas online de negociação de ativos), que tornaram o processo do investimento mais simples. E nas corretoras havia mais variedade de produtos em comparação com o banco. Custos menores, flexibilidade.

Eu pude, nessa fase, aplicar meus conhecimentos em finanças e montar uma carteira própria: diversificada, com custo baixo e rentável.

Empolgado com meu novo brinquedo, liguei para Guilherme:

- Sai do banco, meu velho! Abre uma conta na corretora que é melhor.

Essa dica camarada acabou me dando bastante trabalho depois. Para mim era simples mexer no sistema da corretora. Mas, para ele, que trabalhava em outra área, não era.

Uma vez, Guilherme me ligou reclamando que não conseguia decidir em que investir. A corretora oferecia várias opções, mas não ajudava a escolher a melhor. Ajudei. E ele continuou a me ligar, quase todas as semanas, pedindo dicas. Além de perder um tempo grande cuidando dos meus investimentos, ainda tinha que ajudar o Guilherme...

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Lista da Anbima com alguns fundos de renda fixa. Como escolher o melhor investimento?

Mas ele precisava mais do que minhas dicas. Guilherme sentia falta de um serviço completo. Alguém que pudesse olhar seus investimentos de forma integrada e planejar uma carteira diversificada e de longo prazo.

Uma solução parcial

Alguns anos depois, voltei a atuar profissionalmente no mercado financeiro. Eu era gestor de um hedge fund, fundo de investimentos multimercado de perfil arrojado. Minha função, em conjunto com meu sócio, era colocar a estratégia da carteira em ação, comprando e vendendo ativos.

Uma boa prática do mercado é que o gestor do fundo aplique parte de seu próprio dinheiro em cotas do fundo que gere. Assim, o gestor tem um incentivo ainda maior para que o resultado da gestão seja bem-sucedido. Foi o que fiz. O restante do meu dinheiro continuou aplicado em fundos DI e em títulos de renda fixa nas corretoras.

Logo convidei meus amigos, inclusive Guilherme, para investir no fundo que eu geria.

Como eles confiavam no meu trabalho e sabiam da minha experiência no mercado financeiro, muitos começaram a aplicar no fundo multimercados da Nest.

Meus amigos queriam
ter uma experiência mais
prática com investimentos

Guilherme não me pedia mais dicas sobre quais ações comprar, já que o fundo supria a parcela de risco da sua carteira.

Passou algum tempo e a rentabilidade do fundo estava alta! O Guilherme me ligou, empolgado:

- Quero mandar todo meu dinheiro pro fundo!

Expliquei que não era adequado: em prol da boa diversificação, não é indicado concentrar todos os investimentos em só um ativo. Ainda mais em se tratando de um fundo arrojado, com algum risco de perdas.

No fim das contas, reparei que meus amigos queriam mesmo é ter uma experiência mais simples e prática com investimentos. Eles ficavam perdidos em meio a tantos extratos e relatórios - além do fundo, também aplicavam em bancos e corretoras. Eles não sabiam claramente o retorno consolidado da carteira ou se estavam correndo riscos desnecessários.

Fiquei quebrando a cabeça e pensando como seria uma solução completa.

Algo que fosse tão simples quanto a poupança, mas que tivesse uma estratégia tão sofisticada quanto um hedge fund.

Quando a tecnologia veio com tudo​

Em busca de uma solução completa para os investimentos dos meus amigos, comecei a pensar que a tecnologia poderia ser a reposta - a mesma tecnologia que eu vi transformar o setor financeiro institucional para melhor.

O fim do pregão viva-voz na Bovespa e na BM&F, foi um dos exemplos de como a tecnologia fez a eficiência do mercado aumentar.

E se a tecnologia facilitasse o acesso de qualquer pessoa a investimentos melhores?

Quem não se lembra das clássicas imagens do operadores gritando no pregão? Não passa de uma lembrança romântica. Hoje, todas as operações são realizadas eletronicamente, por uma fração do custo e com muito mais transparência e liquidez.

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Pregão viva-voz na BM&F em 2009. Quem tem saudades? (Foto: Alf Ribeiro/Shutterstock.com)

Vi também os primeiros robôs começarem a atuar no mercado de investimentos para empresas. Com algoritmos sofisticados, eles faziam ordens de compra e venda mais rápido de do que qualquer pessoa a partir de um estratégia predeterminada. Para se ter ideia, hoje 43% das operações do segmento Bovespa são feitas dessa maneira (no mercado norte-americano, esse percentual já é 94%!).

Mas e se o poder dessas tecnologias fosse utilizado também para ajudar o investidor individual?

Notei que algumas empresas nos Estados Unidos começavam a testar esse conceito (e que estava dando certo!). A Betterment e a Wealthfront, recém-lançadas, davam sinais de que logo cairiam no gosto dos engenheiros do Vale do Silício.

O quadro ficou claro para mim.

Eureca!

​Finalmente uma solução completa para investimentos

Liguei para o Guilherme:

- Cara, já sei como resolver seu problema com finanças de uma vez por todas! É um serviço online que vai cuidar de todos seus investimentos. Do início ao fim. Tudo mesmo!

A ideia da Magnetis começava a tomar forma.

- Mas como eu posso confiar nesse serviço? - disse Guilherme.

Expliquei que estávamos desenvolvendo algoritmos baseados em teorias consagradas de finanças. Um delas, criada pelo vencedor do prêmio Nobel de economia Harry Markowitz, é a Teoria Moderna do Portfólio. Conforme esses estudos, um investidor pode otimizar sua rentabilidade e correr menos risco aplicando em uma carteira diversificada, com várias classes de ativos que não têm correlação entre si (por exemplo: ações e renda fixa são tipos de aplicações com baixa correlação, enquanto ações individuais e ETFs, por serem da mesma classe, têm alta correlação).

- Como eu vou ter certeza de que o algoritmo vai escolher o melhor investimento para mim?

Primeiro, você vai responder um questionário, curto, para o algoritmo entender seu perfil de risco e objetivos de vida. Depois, o algoritmo vai simular seu plano de investimentos e mostrar as chances dele dar certo. O algoritmo é imparcial, alinhado somente com os interesses do cliente. É programado para escolher os investimentos com menores custos e maior rentabilidade. No fim, você recebe seu plano de investimentos e vê como foi o desempenho de uma carteira idêntica nos anos anteriores.

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Tela de simulação da Magnetis

- Muito bom! Mas esse serviço vai me custar caro, né?

Não, na verdade vai ser um serviço mais completo e também mais barato. Isso é possível pois criamos um modelo de negócios que elimina o conflito de interesses. Como a Magnetis cobra uma taxa de consultoria explícita pelos serviços, não temos nenhum interesse em recomendar investimentos com custos altos para ganhar em comissões escondidas (como aquele fundo “premiado”, lembra?).

- Depois disso vou ter que perder meu tempo entrando no home broker da corretora para dar as ordens?

Nada disso! Eliminamos esse problema também! Após sua autorização, a ferramenta automaticamente se conecta à plataforma da corretora e envia suas ordens para comprar todos os investimentos de uma só vez.

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Tela do painel de controle dos clientes Magnetis

- Legal! E como vou monitorar meus investimentos para saber se estou no caminho certo?

Vamos ter um painel de controle, onde você vai poder ver o desempenho consolidado da sua carteira e fazer investimentos adicionais. Tudo atualizado automaticamente. Gostou da ideia?

Uma fintech de investimentos

Para cada problema que eu vi meu amigo Guilherme passar, criamos uma solução.

Foi assim que em 2012, fundei a Magnetis - uma das primeiras fintechs de investimentos do Brasil.

O serviço, do jeitinho que é hoje, foi lançado em março de 2015. Meu amigo Guilherme foi um dos primeiros clientes, assim como outros colegas e familiares. Desde então, não paramos de crescer. Milhares de pessoas testam a nossa plataforma a cada mês.

Aplicando a tecnologia às finanças pessoais, e criamos uma consultoria de investimentos completamente digital.

O uso de algoritmos gerou ganhos em eficiência. Por esse motivo, hoje, qualquer pessoa com R$ 15 mil* pode ter o mesmo serviço completo de assessoria de investimentos que só meus amigos com alguns milhões de reais antes tinham acesso.

Ao criar a Magnetis, migrei meus ativos para a nossa plataforma, que hoje continuam sob gestão do algoritmo.

Posso dizer que na categoria de investimentos, o Desafio Fintech está vencido (só não marco o 100% pois ainda dependemos dos bancos para fazer transferências)!

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Neste artigo, cobri apenas os investimentos tradicionais, como fundos, títulos de renda fixa e ações. Afinal, esses ativos devem compor a base da carteira de qualquer pessoa.

Mas existem investimentos alternativos. Pretendo retomar o tema em outro artigo, testando modelos inovadores como plataformas de equity crowdfunding, bitcoin, entre outras.

E você? Já passou por algum problema parecido com os do Guilherme?

Luciano

Luciano Tavares é fundador e CEO da Magnetis. Administrador de carteiras credenciado pela CVM e planejador financeiro CFP ®, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

Leia os outros artigos da série Desafio Fintech:

Parte 1: Os serviços financeiros estão perto de um momento Netflix?

Parte 2: O grande plano - como vou encarar cada fase do Desafio Fintech​

Parte 3: Quem ganha é a carta? Como escapei da renovação automática do seguro

*Texto atualizado em 7/10/16 para atualização do valor do investimento mínimo com a Magnetis.

Foto: ChristianChan/Shutterstock.com