Desafio Fintech: Testamos a NuConta, a conta digital do Nubank

por Luciano Tavares

No fim de outubro de 2017, o Nubank anunciou uma novidade sobre a qual já se especulava há bastante tempo: o lançamento da NuConta, sua conta digital gratuita. O anúncio teve direito a evento para clientes e até a transmissão ao vivo pelo Facebook.

Além da já esperada isenção de tarifa para movimentar essa conta, a grande novidade é que ela também é uma forma de investimento de baixo risco.

Como a Magnetis é uma fintech de investimentos - e também por causa do Desafio Fintech -, nos dias seguintes ao evento muitos colegas perguntaram minha opinião sobre a NuConta e sobre como, tecnicamente, ela iria funcionar.

(Para quem não conhece, o Desafio Fintech é uma série de conteúdos em que eu testo serviços de fintechs de várias áreas).

Alguns pontos sobre a NuConta não ficaram claros na apresentação inicial. Foi aí que resolvi fazer o teste (com a ajuda do nosso designer, Lucas Cardozo) e buscar mais informações (com ajuda da nossa redatora Malena Oliveira). Trabalho de equipe!

Já adianto para você que algumas questões bem complexas surgiram no meio do caminho. Por isso, consultamos o Banco Central, um economista especializado em setor bancário e o próprio Nubank. Então, vamos começar.

NuConta vale a pena? Qual é o rendimento?

A dúvida número um de quem pesquisa sobre a NuConta é: vale a pena investir?

Para resolver essa questão, vamos comparar o rendimento da NuConta com o de outras aplicações.

Aqui vai um exemplo: uma pessoa tem R$ 10 mil disponíveis e não sabe como investir. Também não tem certeza se pode deixar o dinheiro aplicado por muito tempo. Ela resolve, então, deixar o valor depositado na NuConta.

Parâmetros gerais da simulação

  • Valor aplicado: R$ 10 mil
  • Prazo: 1 ano
  • Imposto de Renda: 17,5%
  • Selic acumulada: 7% no ano*

*Para fazer os cálculos, utilizei uma projeção de 7% para a Selic acumulada em um ano com base no relatório Mercado Secundário de Títulos Públicos, da Anbima.

Depois de um ano, um possível resultado pode ser o seguinte, já comparando também com outras aplicações:

Qual é o rendimento da NuConta

*O resultado está líquido da taxa de custódia de 0,3% sobre o valor do investimento no Tesouro Direto.

**Quando a Selic está abaixo de 8,5%, a poupança rende 70% dessa taxa, mais a Taxa Refencial (TR). Entenda por que o rendimento da poupança é ruim.

Você vai notar que o rendimento da NuConta é maior que o do Tesouro Selic. Isso porque a taxa de custódia de 0,3% dessa aplicação faz com que seu rendimento seja menor.

O rendimento da NuConta também se iguala ao de um CDB que prometa a rentabilidade 100% do CDI no mesmo período.

Por outro lado, um CDB que pague a partir de 101% do CDI já supera o resultado final da NuConta, mesmo após o pagamento do Imposto de Renda. 

No entanto, esse tipo de investimento costuma ter menos liquidez e não é indicado para quem precisa sacar o dinheiro de uma aplicação com frequência.

Resumindo: 

Enquanto a NuConta pode ser uma boa opção para a gestão do dia a dia ou para o rendimento de pequenos valores, existem melhores alternativas para investimentos de longo prazo, como para aposentadoria ou compra da casa própria.

Se você já está construindo seu patrimônio de longo prazo, recomendamos sempre montar uma carteira de investimentos bem diversificada e personalizada para seus objetivos. Essa é a melhor forma de maximizar seu retorno, mantendo o risco adequado ao seu perfil.

Aqui na Magnetis, por exemplo, trabalhamos com diversificação de investimentos e opções para variados perfis (dos mais conservadores aos mais arrojados). Isso sempre considerando os objetivos de médio e longo prazos dos nossos clientes.

Como montamos carteiras diversificadas, elas acabam sendo mais resistentes a mudanças na economia e capturam com mais segurança os efeitos de momentos positivos. Assim, o melhor resultado aparece no longo prazo. Quer tirar a prova? Faça aqui a sua própria simulação.

Como abrir uma NuConta

Em novembro de 2017, quando este post foi escrito, a NuConta estava sendo liberada aos poucos para clientes Nubank. A segunda fase de liberações aconteceu em janeiro de 2018. 

Hoje, qualquer pessoa já pode pedir uma NuConta, ainda que não tenha o cartão de crédito roxo. 

No início, a NuConta só era acessada por meio de um convite, enviado pela equipe do Nubank aos usuários testadores de novidades (beta testers), uma fase comum de desenvolvimento de novos produtos que serve para detectar e resolver possíveis falhas.

O nosso designer Lucas é um beta tester, ou seja, conseguiu mais cedo a liberação.

Veja a seguir como são os primeiros passos para a abertura da conta e o que acontece após a primeira transferência.

  • Convite
  • Dados da conta
  • transferência
  • Rendimento

Feita a transferência, o saldo é atualizado e já é possível ver também o rendimento do valor aplicado.

Depois de clicar no link do convite para habilitar a NuConta, o passo seguinte é uma tela com um QR Code e dados de agência e conta para fazer a primeira transferência.

Na época do lançamento, a única forma de mandar dinheiro para a NuConta era por meio de uma transferência a partir de outra conta bancária (TED).

Já é possível emitir um boleto por meio do aplicativo do Nubank e pagá-lo. O dinheiro é depositado diretamente na NuConta


Para fazer esse depósito, basta clicar no link "Gerar Boleto", que aparece na parte inferior da tela com os dados da conta.

Se você optar pela TED, saiba que cada instituição financeira tem sua própria política. Por isso, a transferência de valores de outros bancos para a NuConta pode ser cobrada (um valor de aproximadamente R$ 8). 

Há contas bancárias que, por exemplo, permitem um número limitado de TEDs gratuitas por mês. Há outras que permitem transferências gratuitas somente por app de celular ou net banking.

Dica: transferências para contas de mesma titularidade geralmente são gratuitas ;-). Mas vale sempre checar qual é a política do seu banco.

No caso de uma transferência de valores da NuConta para outras contas bancárias, a TED é gratuita.

Como assim uma conta que é um investimento?

A primeira transferência demorou apenas alguns minutos para ser compensada. Daí, chegamos a uma tela que mostra o saldo da NuConta, o histórico de depósitos e saques e os rendimentos.

Ao acessar o menu "Posição Detalhada", que fica na parte inferior da tela, notamos que o dinheiro foi aplicado em um investimento que promete um retorno de 100% do CDI e tem um vencimento programado para daqui a dois anos, em outubro de 2019.

Segundo o Nubank, esse investimento é de baixo risco porque é feito em títulos públicos (que rendem diariamente) e pode ser sacado a qualquer momento.

A partir daqui, porém, começaram a aparecer algumas perguntas.

  • Em que tipo de investimento o dinheiro da NuConta está aplicado? O registro desse investimento é feito no nome do cliente?
  • Esse investimento terá Imposto de Renda (IR) ou Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)?
  • Será cobrada alguma taxa de administração por esse investimento? Mas ela incide sobre todo o valor aplicado? Ou será válida apenas sobre o rendimento da aplicação?

As respostas que eu tive ao consultar o próprio Nubank em diversas ocasiões foram:

  • A aplicação financeira é feita pelo Nubank em títulos públicos atrelados à Selic (Tesouro Selic, a antiga LFT). Essa aplicação, diferente de quem aplica no Tesouro Direto, não é registrada em nome do cliente. É uma aplicação feita diretamente pelo Nubank no Tesouro Nacional enquanto investidor institucional. Por isso, não há cobrança daquela taxa de custódia obrigatória de 0,3% ao ano, como acontece com o investimento no Tesouro Direto;
  • A tributação desse investimento será feita no momento do saque e vai obedecer às regras de IR e IOF tal como outras aplicações em renda fixa. Trocando em miúdos: tabela regressiva do Imposto de Renda e IOF nos casos de saques feitos antes de 30 dias da data da aplicação;
  • Sobre a cobrança de taxas, inicialmente a informação era de que a NuConta teria uma taxa de 1% sobre o rendimento da aplicação. Em abril de 2018, voltamos a fazer a consulta, e a informação é de que essa taxa não está sendo cobrada no momento. Porém, a empresa informou que isso não significa que ela nunca será cobrada. Se a taxa de administração vier a incidir, será sobre o rendimento da aplicação, e não sobre o valor depositado.

Tenho NuConta: preciso declarar IR?

Uma dúvida comum de quem decidiu deixar seu dinheiro na NuConta é a necessidade de fazer a declaração de ajuste anual do Imposto de Renda.

A resposta é: depende.

Se você não declarava IR antes de ter a NuConta, só vai precisar fazer isso se passar a se enquadrar em qualquer um dos critérios que tornam a declaração obrigatória. Em 2018, eles são:

  • Rendimentos recebidos de pessoa jurídica (incluindo o seu salário) superiores a R$ 28.559,70;
  • Rendimentos isentos de aplicações financeiras acima de R$ 40 mil ou sujeitos à tributação definitiva;
  • Propriedades de valor superior a R$ 300 mil.

Mas como muitas pessoas só tiveram acesso à NuConta em 2018, a preocupação com o IR vai ficar para 2019.

Para quem já declarava IR, nada muda. Basta apenas solicitar o seu Informe de Rendimentos ao Nubank para incluir os dados em sua declaração.

Usando a NuConta para gestão de pequenos valores

Segundo o Nubank, a ideia é que a NuConta elimine a complexidade das aplicações financeiras e seja uma forma de "tomar uma decisão de investimento pelo cliente".

Aqui, vale destacar que esse mecanismo pode ajudar e muito as pessoas que não têm tanto conhecimento sobre o tema ou não sabem onde investir.

A NuConta poderia ser usada, por exemplo, para a gestão do dinheiro do mês ou para manter uma reserva de emergência, o que é importante em caso de algum imprevisto.

Em outros países, como Estados Unidos e Reino Unido, esse tipo de conta já existe há mais tempo e é chamado de Savings Account.

Porém, para investimentos com foco em prazos maiores (por exemplo: comprar uma casa, viajar daqui a dois anos, aposentadoria), há outros produtos financeiros no mercado que oferecem a possibilidade de rendimentos maiores.

Para esse tipo de demanda de médio ou longo prazos, a solução que oferecemos na Magnetis é ideal, pois trabalhamos com investimentos diversificados e custo baixo.

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E o risco de deixar o dinheiro na NuConta?

Outro ponto importante a considerar - e isso serve para qualquer investimento - é o risco de deixar o dinheiro aplicado na NuConta.

Os recursos depositados não ficam registrados no nome do cliente e não há proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) - que é o mecanismo que assegura a devolução do dinheiro dos clientes de um banco em caso de falência até o limite de R$ 250 mil por CPF.

Por outro lado, a NuConta é uma conta de pagamentos e possui características diferentes das contas correntes tradicionais (vou falar disso mais adiante).

O Nubank não pode misturar o dinheiro dos depósitos de clientes aos seus próprios recursos, ainda que esse dinheiro não seja aplicado em títulos públicos em nome desses clientes.

Esse dinheiro também não pode ser usado para pagar dívidas da instituição em caso de falência e nem pode ser congelado por qualquer ação judicial, de acordo com o Banco Central.

Não dá para sacar dinheiro direto da NuConta

Um detalhe pode ser desfavorável para a rentabilidade da aplicação na NuConta: o saque.

Uma das principais diferenças entre a NuConta e as outras opções existentes no mercado é que ela é uma conta de pagamento. Por isso, tem algumas particularidades.

Assim como não é possível depositar dinheiro direto na NuConta, também não é possível sacar da maneira tradicional. Além disso, segundo o Nubank, não há planos de um cartão de débito para essa conta.

Então, quem quiser retirar dinheiro da NuConta terá de transferir os recursos para outra conta em outro banco e só então sacar (por essa transferência o Nubank não cobra taxa). O próprio Nubank não recomenda que seus usuários fechem as contas em outros bancos.

Outra opção é fazer um saque via cartão de crédito, uma vez que a NuConta está atrelada ao cartão Nubank. Apesar de o Nubank não cobrar tarifa por esse saque, ainda assim incidem alguns encargos:

  • Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) de 0,38%, mais 0,0082% ao dia (limitado a 3%), sobre o valor sacado;
  • Tarifa do terminal eletrônico, que varia e é informada no momento do saque.

Logo, o imposto e a taxa pagos por esse saque afetam o rendimento do dinheiro aplicado na NuConta.

O Nubank ainda não era um banco no momento do lançamento da NuConta. Só em janeiro de 2018 um decreto da Presidência da República permitiu que ele deixasse de ser uma instituição de pagamento e se tornasse uma instituição financeira: a Nu Financeira.

A principal diferença é que, ao contrário de um banco, uma instituição de pagamento não pode conceder empréstimos e operar uma conta-corrente tradicional, apenas contas de pagamento.

Segundo o Banco Central, essas contas podem ser pré-pagas - o cliente envia dinheiro para elas de modo a fazer pagamentos no futuro. Nessa definição se encaixa a NuConta. 

As contas de pagamento também pode ser pós-paga - a própria abertura de um limite para gastos com cartão de crédito é um exemplo. Sacou a referência?

Atualização: A NuConta ganhou novas funcionalidades e agora é possível pagar boletos e até receber salário por meio dela.

Um caminho para a inclusão

A Malena, aqui da Magnetis, conversou com o Roberto Luis Troster, que foi economista-chefe da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) e da Associação Brasileira de Bancos (ABBC), para entender o que esse movimento do Nubank significa para o Brasil.

Ele mencionou que iniciativas como a NuConta podem facilitar a relação das pessoas com o sistema bancário e ajudá-las a dar os primeiros passos no mundo dos investimentos.

Troster mencionou que em países como Índia e Quênia esse processo de inclusão financeira 100% digital está mais avançado.

"A Índia, por exemplo, já estuda abolir o papel-moeda. No Quênia, a população passou a ter acesso ao sistema financeiro pelo celular, sem a necessidade de passar pelo banco físico."

Voltando ao Brasil, a NuConta chega como uma boa opção para gerenciar pagamentos e gastos do dia a dia e - de quebra - garantindo um rendimento sobre o saldo em conta.

Mas se você já está investindo para aumentar seu patrimônio no longo prazo (ou quer começar a fazer isso), a nossa recomendação é sempre montar uma carteira diversificada e personalizada para seus objetivos.  

Quer saber como começar a investir com diversificação? Confira aqui como a Magnetis pode te ajudar. 😉 E, claro, também esperamos seu comentário aqui no post!

Luciano

Luciano Tavares é fundador e CEO da Magnetis. Administrador de carteiras credenciado pela CVM e planejador financeiro CFP ®, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

*Texto originalmente publicado em novembro/2017

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