Quem ganha é a carta? Como escapei da renovação automática do seguro

por Luciano Tavares | 23/03/2016

Quem ganha é a carta? Como escapei da renovação automática do seguro

Estava pensando qual seria a minha primeira missão do Desafio Fintech, quando a resposta bateu à minha porta - literalmente.


Chegou pelo correio (sim, correio tradicional) uma carta da seguradora informando que o seguro do carro da minha esposa estava prestes a vencer. Em anexo, uma proposta de renovação da apólice.


O valor proposto me saltou aos olhos. Não lembrava exatamente o preço do ano anterior, mas a renovação me pareceu muito (muito mais!) cara.


Fiz uma busca pelo pagamento do seguro no ano passado, usando meu sistema de controle financeiro, e confirmei a suspeita:


O valor da renovação estava 39% maior do que o pago em 2015!


Estava prestes a jogar a carta fora, quando notei a seguinte frase:


"Concordando com a nossa proposta, você não precisará tomar qualquer providência, pois no dia do vencimento das parcelas, os valores serão debitados da conta corrente abaixo indicada e você receberá sua nova apólice."


Quanta conveniência! Se eu aceitar pagar 39% a mais no meu seguro, basta não me manifestar que o valor será debitado automaticamente da minha conta do banco! 

Lembrei do Silvio Santos falando do Baú de Felicidade:


“Se você não ganhar, quem ganha é a carta!”


Não quis deixar a carta da seguradora me vencer tão fácil.


Senti que era a hora perfeita de procurar uma solução melhor.



Migrando para fintechs


Quais empresas de tecnologia financeira poderiam me ajudar a segurar o carro de forma mais fácil e com um custo menor?


Antes, um esclarecimento sobre como funciona o mercado de seguros no Brasil.


Existem dois tipos de instituições: seguradoras e corretoras de seguros.


Seguradoras: empresas que tomam o risco e que indenizam o cliente com os eventuais prejuízos que ele sofra. Se seu carro for roubado, por exemplo, é a seguradora quem arcará com a conta.


Corretoras: são os intermediários responsáveis por comercializar os produtos das seguradoras. No Brasil, é obrigatória - por lei - a contratação de uma corretora para intermediar um seguro.


Tanto seguradoras quanto corretoras devem ser autorizadas pelo órgão regulador, a SUSEP (Superintendência de Seguros Privados).


Como atuam as fintechs de seguros?


No Brasil, as fintechs do segmento de seguros são, exclusivamente, corretoras.


Elas procuram facilitar a intermediação junto às seguradoras tradicionais, mas não emitem a apólice de seguro propriamente dita.


Para comparar os serviços das fintechs com os das corretoras tradicionais, fiz a cotação da mesma apólice em:


  • 3 corretoras online

  • 2 corretoras tradicionais (offline)

  • corretora ligada ao meu banco.



Corretoras online


Para o Desafio Fintech, selecionei três das maiores corretoras online de seguros: Minuto Seguros, Bidu e ComparaOnline.


  • Minuto Seguros: foi fundada em 2011 por Marcelo Blay e Manes Erlichman Neto, profissionais experientes no ramo de seguros. Nasceram com o foco em vender seguros pela internet e receberam aporte de capital do fundo Redpoint e.ventures (que também investiu na Magnetis).


  • Bidu: nasceu em 1995 com o nome Pontal Seguros. Em 2011 a corretora passou a apostar no modelo de atendimento online e também trocou o nome para Bidu. Os sócios-fundadores são Eldes Mattiuzzo, Gustavo Pioto e André Piza. A Bidu já recebeu investimentos de fundos como Amadeus Capital Partners e Monashees Capital (também investidora da Magnetis). 


  • ComparaOnline: o serviço surgiu em 2009 no Chile, fundado por Sebastián Valin. Chegou ao Brasil em 2012, após aquisição de parte do CortaContas - braço de comparação de serviços financeiros do Buscapé Company. Em sua história, a empresa já teve três rodadas de aportes, com participação de fundos como Endeavor Catalyst, Kaszek Ventures, Ribbit Capital e Rise Capital.


O processo de cotação é bem semelhante nas três: primeiro, você preenche um formulário online falando os dados do seu carro e do condutor. A corretora é integrada a várias seguradoras e faz automaticamente a cotação do seguro em todas elas, de uma só vez. Você seleciona a proposta que mais te agrada e fecha o contrato através do site.


Agora, vejamos como as corretoras online procuram inovar em cada etapa:


1. Formulário


Formulários longos são sempre um pesadelo. No caso do seguro de veículo, as seguradoras exigem uma quantidade enorme de informações. E muitas vezes uma resposta aparentemente sem sentido ("você tem filhos entre 16 e 24 anos?"), pode ter um impacto grande no valor cobrado.


Neste quesito, todas as corretoras online que testei fizeram um excelente trabalho. Os formulários são fáceis de preencher e usam boas práticas de usabilidade. Os campos se adaptam às respostas anteriores e, em alguns casos, são preenchidos automaticamente. Também verificam, em tempo real, se há erro na resposta inserida (método chamado de validação inline).


Levei em média 7 minutos para responder cada formulário.

Qual tipo de formulário você prefere preencher?



2. Cotações


Uma vez preenchido o formulário, as corretoras enviam automaticamente as informações para as diversas seguradoras parceiras. Aqui a Minuto Seguros me pareceu ter uma vantagem em relação às demais, pois está integrada a uma quantidade maior de seguradoras. Ainda assim, todas apresentaram uma boa oferta de parceiros.




As cotações chegaram rapidamente: demorou em média um minuto. Bidu e ComparaOnline mostraram as cotações diretamente na página.


A Minuto Seguros tem um processo um pouco diferente: não mostram o resultado imediatamente na tela, mas enviam um email com um link para a página de cotações. Inicialmente, achei o fluxo estranho, mas o email chegou tão rápido que nem deu tempo de eu me distrair com outra atividade antes.


A apresentação das cotações também foi muito clara em todos os serviços. A proposta de cada seguradora é mostrada lado a lado na tela, facilitando a comparação dos valores e condições.

Exemplo de tela de comparação de seguros


Aqui, a primeira boa notícia: as cotações apresentaram uma grande variação de preço entre si, mas em todas as corretoras recebi pelo menos uma proposta mais barata do que a renovação automática da minha atual seguradora. Considerando a proposta de menor valor, já conseguiria uma economia de 30%!


Mas, antes de fechar a melhor proposta, resolvi testar os serviços tradicionais.



Corretoras tradicionais


Solicitei, por email, cotações em duas corretoras de seguros tradicionais. Depois de algumas horas, ambas me responderam com um formulário anexo para eu preencher.


As informações, em geral, eram semelhantes às solicitadas pelas corretoras online. Porém, o processo de preencher um documento é bem mais trabalhoso do que um formulário online e interativo. Não há campos autopreenchidos e nem a segurança que as informações inseridas estavam válidas.


Enviei o formulário, mas as respostas demoraram entre um e dois dias para chegar.


Uma das corretoras me respondeu no dia seguinte, solicitando mais informações sobre a apólice atual. Queriam um número identificador que eu não tinha a menor ideia do que se tratava nem de como obtê-lo. Desisti.


A segunda corretora levou dois dias para responder com uma proposta. O valor era menor do que aquela proposta de renovação automática, porém, maior do que das corretoras online. Agradeci e arquivei.


Solicitei ainda uma cotação para o gerente do meu banco. Queria ter certeza de que não conseguiria um preço mais barato que o encontrado pelas fintechs, uma vez que a seguradora desse banco é uma das líderes do setor.


O gerente me mandou um formulário para eu preencher por email. Enviei e, dois dias depois, recebi uma cotação com o menor valor de todos!


A alegria durou pouco. Eles haviam cotado com valores de cobertura bem menores do que eu havia solicitado. Alertei o gerente do erro e ele me prometeu uma nova proposta correta. Nunca recebi.


Resumo: a experiência com as corretoras tradicionais ficou a desejar. O processo foi mais demorado, burocrático e repleto de erros.



O preço da renovação automática

Ainda havia uma pulga atrás da minha orelha.


Lembra daquela maravilhosa proposta de renovação automática que custava 39% a mais do que paguei em 2015? Resolvi ligar para eles para ver se conseguiria "negociar" o valor.


Em vinte minutos, expliquei toda a história para o atendente - que me prometeu ver o que conseguiria fazer: "Um minuto senhor, que vou estar verificando."


Após cinco minutos esperando, caiu a ligação.


Tentei novamente. Caiu a ligação novamente.


Mais uma vez. Já estava me sentido o Porchat falando com a Judith.


Na quarta tentativa, após 30 minutos contando toda a história novamente para outro atendente, finalmente ele me prometeu enviar uma nova proposta de apólice por email.


Não botei muita fé, mas, alguns minutos depois, eis que chega no meu email a nova proposta. O novo valor? 22% menor que o proposto na carta de renovação automática.


Só para deixar claro: não fiz nenhuma alteração na apólice. Uma simples ligação e o custo caiu por um quarto. Vejo duas explicações possíveis:

a) Utilizei meus truques mentais Jedi para hipnotizar o atendente.

b) A seguradora se aproveita da confiança dos seus próprios clientes e tenta sugar cada centavo que pode​.


Qual alternativa você considera a mais plausível?



Contratando o seguro


Esgotadas todas as alternativas, o último passo foi selecionar a melhor proposta e fechar o seguro.


Algumas seguradoras (incluindo a da carta acima) tentam agregar à apólice benefícios extras como reparos domésticos, clubes de descontos, premiações e outras baboseiras.


Pessoalmente, não vejo nenhuma utilidade nesses serviços. Quando procuro um seguro para meu carro, busco apenas que seja barato e confiável.


Com isso em mente, voltei às cotações das seguradoras online e selecionei a mais barata entre elas, cotada pela Bidu. Vale ressaltar que a diferença de preço entre as corretoras online foi bem pequena. Na comparação com a renovação automática, eu conseguiria obter uma boa redução de custo em todas as propostas das fintechs.


Finalizar a contratação do seguro foi relativamente simples, com alguns percalços. Ao selecionar a proposta vencedora, o site me apresentou um novo formulário pedindo informações adicionais sobre a minha apólice atual. Deu algum trabalho encontrar esses dados, mas entendi que eram necessários para efetivar a transferência do seguro atual.


Optei por débito na minha conta corrente para o pagamento. Algumas horas depois recebi um email informando que o meu banco não está habilitado para débito. (Porque não me informaram antes?!) Enfim, alterei para boleto bancário e o seguro foi fechado!


Sucesso


A primeira migração para fintechs foi completada com sucesso!


Considerando que o seguro para automóvel é o principal produto que utilizo no segmento das seguradoras, vou considerar que meu progresso fintech na categoria subiu de 10% para 70%.


Desafio-fintech

Conforme previsto no último artigo, "O grande plano", o processo de migração da categoria seguros foi bastante tranquilo. A experiência de uso de todas as corretoras online é excelente e resultou numa economia de custos relevante.


Para melhorar ainda mais os serviços das corretoras online, há algumas funcionalidades que gostaria de ver.

Em nenhuma das corretoras encontrei a possibilidade de salvar os dados do meu carro. Isso seria extremamente útil no futuro, quando precisar renovar o seguro ou mesmo trocar de carro. Essa função evitaria o preenchimento do formulário novamente.

Idealmente, gostaria que as corretoras online já fizessem automaticamente a cotação do meu seguro algumas semanas antes da renovação. Ao invés de receber uma carta com uma proposta indecente de renovação automática da própria seguradora, gostaria de receber um email ou uma notificação via app dizendo:​


"Luciano, o seguro do seu Camaro amarelo vai vencer daqui a 2 semanas. Já fizemos a cotação do seu seguro em 10 seguradoras e selecionamos as melhores propostas para você. Clique na sua proposta preferida para renovarmos o seu seguro."


Com transparência nas cotações, eu me sentiria seguro de renovar automaticamente.

Dessa vez, eu venci a carta!


O futuro do mundo dos seguros


Se a cotação e compra do seguro online já é uma realidade aqui no Brasil, o que poderemos esperar no futuro?


Nos EUA e na Europa, já estão surgindo alguns modelos bastante inovadores de seguros. Um deles é o conceito de pay-per-use, adotados por empresas como Metromile e Drive Like a Girl. Nesse modelo, um dispositivo móvel é instalado no veículo, e monitora dados como: quilômetros rodados, velocidade e localização. O custo do seguro será baseado em quanto e como você utiliza o veículo. Quem utiliza menos e dirige prudentemente, paga menos também.

Outro modelo bem promissor é o de peer-to-peer insurance, uma forma de "seguro coletivo". Você junta um grupo de pessoas que queiram segurar seus carros e constitui uma espécie de cooperativa que cobre qualquer eventualidade. Assim, as empresas conseguem reduzir os sinistros e as fraudes, e repassam esse benefício para os segurados. Exemplos de empresas: Guevara, Friendsurance, Inspeer e Lemonade.


Se pagar menos no seguro já é bom, outro movimento que está ganhando força é simplesmente não ter carro. A sharing economy (economia compartilhada) está cada vez mais transformando "donos" em "inquilinos". Para que pagar caro por um carro que vai ficar parado na garagem 98% do tempo, se eu posso clicar um botão e ter um carro de luxo com motorista sob demanda, por um baixo custo? Alô, Uber!


Num futuro próximo, ainda teremos os veículos autônomos que transformarão completamente a maneira que nos locomovemos. Há quem diga inclusive que a indústria de seguros auto se tornará obsoleta, pois acidentes serão raros.

Luciano

Luciano Tavares é fundador e CEO da Magnetis. Administrador de carteiras credenciado pela CVM e planejador financeiro CFP ®, tem mais de 20 anos de experiência no mercado financeiro.

(Foto principal: Divulgação/SBT)

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