Como investir em tempos de queda dos juros?

por Daniel Jannuzzi

Tenho recebido sempre a mesma pergunta dos clientes que procuram investir com a Magnetis. Em geral, todos querem saber onde investir em um cenário de queda de juros.

Não é para menos.

Na primeira vez em que este post foi publicado, em julho de 2017, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central havia decidido reduzir a Selic pela 7ª vez consecutiva, para 9,25% ao ano.

De lá para cá houve mais cinco cortes e a Selic agora está em 6,5% ao ano, no menor patamar das últimas duas décadas.​

Quando olhamos para frente, a perspectiva de mais cortes ainda não havia sido totalmente descartada. O mercado esperava que o juro básico da economia continuasse o ciclo de quedas e fosse reduzido para 6,25% ao ano. 

Porém, na última reunião do Copom (agosto de 2018), o BC manteve pela segunda vez a Selic em 6,5% ao ano depois de 12 quedas consecutivas. Mesmo com esta manutenção, este é o menor patamar da taxa de juros na história do país. 

A expectativa agora é de que a Selic só volte a subir em meados de 2019.

Mas como isso afeta seus investimentos?

Neste texto, vou falar de algumas questões:

  • Como a queda dos juros se relaciona com investimentos prefixados
  • Quais investimentos tendem a se beneficiar dos juros menores
  • Por que a diversificar é importante

Queda dos juros e investimentos prefixados

"Vale a pena investir em títulos prefixados?"

Grande parte das dúvidas sobre investimentos num cenário de juros em queda passam por essa questão.

Mas, antes de entrar nesse ponto, vou explicar rapidamente o que é o famoso prefixado.

A principal característica do prefixado é que a taxa de rentabilidade é predeterminada no momento da aplicação. O retorno informado é garantido apenas se o investidor mantiver o ativo até o vencimento.

Caso venda o título antes do vencimento, a rentabilidade pode ser diferente, pois é influenciada pelas condições de juros de mercado e pelo quanto um outro investidor vai estar disposto a pagar por aquele título “de segunda mão”. Essa dinâmica é chamada de marcação a mercado.

Muitas pessoas pensam que estão fazendo um bom negócio ao comprar um prefixado em momento como o atual, em que ainda há expectativa de queda de juros.

Entretanto, esse é um conceito errado.

Isso porque se as projeções apontam que a Selic vai cair, essa expectativa já está embutida no preço dos investimentos prefixados oferecidos no mercado. Isso que significa dizer que o mercado já "precificou".

Veja neste exemplo real: o Tesouro Direto.

Se você acessar a página de rentabilidade dos títulos públicos vendidos no Tesouro Direto, vai ver o seguinte na parte dos prefixados (dados de 01/08/2018):

Depois de ver a tabela, você pode pensar:

"Opa, o prefixado está pagando melhor do que a Selic atual (6,5% ao ano). Então, é uma boa oportunidade para comprar!"

Não exatamente.

Se você clicar no link do boletim de Mercado Secundário da Anbima, vai perceber que a taxa de juros projetada começa a subir para os títulos que vencem a partir de 2019.

Isso significa que o mercado está fechando negócios hoje com base em projeções de que a taxa de juros vai subir no futuro.​

Esse é um exemplo do que eu acabei de explicar: os investimentos prefixados já têm embutidos em seus preços o que o mercado espera.

Vale lembrar que essa é apenas uma expectativa. Ninguém pode garantir que os juros vão subir ou cair no futuro.

Além disso, quanto mais distante o prazo de vencimento de um investimento, maior é a incerteza do mercado. Assim, para 2025 e 2029 as taxas estão mais altas.

E aí? Investir em um prefixado nestes casos é um bom negócio? Tudo depende, na verdade, de como o mercado financeiro vai se comportar na prática.

Para exemplificar, vou falar de alguns cenários hipotéticos comparando o Tesouro Prefixado e o Tesouro Selic (título cuja rentabilidade acompanha a taxa Selic).

1. A taxa de juros cai para 6,25% (conforme previa o mercado)

Neste caso, o mercado já precificou a queda dos juros. A rentabilidade do Tesouro Selic tende a ficar próxima a do Tesouro Prefixado no curto prazo.

2. A taxa de juros cai para 6% (mais do que o mercado previa)

O investimento em um prefixado supera o retorno de uma aplicação em Tesouro Selic.

Se a pessoa que tem o prefixado tentar vender o título antes do vencimento, pode ganhar ainda mais que o esperado, por causa da marcação a mercado.

3. A taxa de juros permanece em 6,5% (o que o mercado prevê o mercado)

O Tesouro Prefixado passa a ter um retorno inferior ao do Tesouro Selic.

Se o investidor que tem um Tesouro Prefixado precisar se desfazer do título antes do vencimento, seu título valerá menos no mercado e ele sofrerá com essa queda no preço.

4. Juros sobem para 7% ainda em 2018 (o que o mercado não prevê)

Esse seria um cenário improvável - ainda que possível! É um exemplo que nos ajuda a pensar que, no fim das contas, o mercado é imprevisível.

Nesse cenário improvável, o Tesouro Prefixado teria um retorno muito inferior ao do Tesouro Selic no curto prazo.

O título prefixado passaria a valer ainda menos no mercado secundário, caso o investidor precisar se desfazer do ativo antes do vencimento.

A partir desses raciocínios, é possível traçar infinitos cenários para as taxas de juros.

Quais investimentos tendem a se beneficiar do juro menor

Agora que você entendeu como funciona a aplicação em prefixados, vamos falar sobre como outros tipos de ativos se comportam em um cenário de juros menores.

Esse ponto é importante, pois tem relação com o conceito da diversificação dos investimentos, que vamos abordar a seguir.

Investimentos com características essencialmente diferentes tendem a se comportar de maneira inversa dependendo da situação da economia e do mercado financeiro.

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Prever exatamente qual será o desempenho de cada ativo em particular é praticamente impossível. Por causa disso, um dos conceitos mais consagrados em investimentos é o da diversificação.

Basicamente, é a ideia é que o investidor deve ter uma cesta de investimentos composta por ativos com características essencialmente diferentes. Essa segurança beneficia o resultado da carteira como um todo e reduz os riscos ao longo do tempo.

Para exemplificar, comparamos o histórico do Ibovespa com as taxas de juros futuros, que refletem a expectativa do mercado para o desempenho dos juros no futuro.

Ao calcular a correlação entre os dois ativos, encontramos uma correlação negativa. Ou seja, eles têm comportamento inverso. Quando os juros futuros caem, as ações tendem a subir.Isso acontece pois quando as taxas de juros futuros mudam, o mercado acionário reage. Quando os juros futuros sobem, fica mais atrativo investir em renda fixa do que em renda variável - e as ações tendem a se desvalorizar. E vice-versa.

Por que a diversificação é importante

Você pode estar pensando:

"Se eu sei que as taxas de juros tendem a ter o comportamento oposto ao do Ibovespa, por que não investir em juros quando os juros sobem e em Bolsa quando a Bolsa sobe? Assim eu estaria sempre na crista da onda..."

Não é bem assim… Para esclarecer, vou falar dos motivos.

Um deles tem a relação com a ideia do "mercado precificou", que falamos anteriormente ao explicar os investimentos prefixados. Quando a projeção de juros já é de queda, isso também já pode estar refletido no preço alto das ações.

Além disso, apesar de trabalharmos com as expectativas do mercado financeiro, na prática ninguém pode saber com 100% de certeza qual será o comportamento do mercado na vida real. Nem mesmo é certeiro prever quando será o momento de virada no comportamento de um investimento. Por esse motivo, nós lidamos com cenários e as probabilidades de que eles ocorram.

Diante da incerteza, a diversificação dos investimentos entrega ao investidor segurança e controle do nível de risco corrido. Também evita que as carteiras tenham altos e baixos muito bruscos.

Isso tudo foi possível de observar na prática na rentabilidade das Carteiras Magnetis no primeiro semestre de 2018. Foi um período em que a bolsa teve volatilidade, com recordes negativos e positivos.

Na Magnetis, trabalhamos sempre com a estratégia da diversificação ao compor as carteiras de investimentos para os clientes, já a partir do mínimo de R$ 1 mil. E para diversificar de verdade, analisamos renda fixa, renda variável, mas também crédito privado e fundos multimercados.

Isso tudo permite que, ao longo do tempo, a rentabilidade seja maximizada. E é isso que todo mundo quer, não é mesmo?

Daniel Jannuzzi é economista e consultor de investimentos da Magnetis

Daniel Jannuzzi é economista e consultor de investimentos da Magnetis.

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*Post originalmente publicado em julho/2017 e atualizado em 01 de agosto/2018

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