Os juros vão cair ainda mais. Como investir seu dinheiro nesse cenário?

por Daniel Jannuzzi

Tenho recebido sempre a mesma pergunta dos clientes que procuram investir com a Magnetis. Em geral, todos querem saber onde investir em um cenário de queda de juros.

Não é para menos.

Em 31 de maio, a taxa básica de juros (Selic) foi reduzida pela sexta vez por decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central.

A Selic agora está em 10,25% ao ano.

E, quando olhamos para frente, a perspectiva é de mais cortes: o mercado espera que em 2018 possa baixar para 8,5% a.a.

Como isso afeta seus investimentos?

Neste texto, vou falar de algumas questões:

  • Como a queda dos juros se relaciona com investimentos prefixados
  • Quais investimentos tendem a se beneficiar dos juros menores
  • Por que a diversificar é importante

Queda dos juros e investimentos prefixados

"-Vale a pena investir em títulos prefixados?"

Grande parte das dúvidas sobre investimentos num cenário de juros em queda passam por essa questão.

Mas, antes de entrar nesse ponto, vou explicar rapidamente o que é o famoso prefixado.

A principal característica desse papel é que a taxa de rentabilidade é predeterminada no momento da aplicação. O retorno informado é garantido apenas se o investidor mantiver o ativo até o vencimento.

Caso venda o título antes do vencimento, a rentabilidade pode ser diferente, pois é influenciada pelas condições de juros de mercado e pelo quanto um outro investidor vai estar disposto a pagar por aquele título “de segunda mão”. Essa dinâmica é chamada de marcação a mercado.

Muitas pessoas pensam que estão fazendo um bom negócio ao comprar um prefixado em momento como o atual, em que há expectativa de queda de juros.

Entretanto, esse é um conceito errado.

Isso porque se as projeções apontam que a Selic vai cair, essa expectativa já está embutida no preço dos investimentos prefixados oferecidos no mercado. Isso que significa dizer que o mercado já "precificou".

Veja neste exemplo real: o Tesouro Direto.

Se você acessar a página de rentabilidade dos títulos públicos vendidos no Tesouro Direto, vai ver o seguinte na parte dos prefixados:

Tabela com títulos prefixados do Tesouro Direto (maio de 2017)

Depois de ver a tabela, você pode pensar:

-Opa, mas peraí, a taxa Selic (hoje em 10,25% ao ano) está acima da rentabilidade oferecida pelos prefixados no Tesouro Direto?

Sim, é isso mesmo.

Isso acontece pelo que acabei de explicar: os investimentos prefixados já têm embutidos em seus preços a expectativa do mercado para o futuro. E, se há uma expectativa de queda dos juros, isso fica bem claro no Tesouro Prefixado com vencimento em 2020, que está pagando 9,62% ao ano.

Por outro lado, quanto mais distante o prazo de vencimento, maior a incerteza do mercado, então para 2023 e 2027 as taxas estão na casa dos 10% ao ano.

E aí?

Investir em um prefixado nestes casos é um bom negócio? Tudo depende, na verdade, de como o mercado financeiro vai se comportar na prática.

Para exemplificar, vou falar de alguns cenários hipotéticos comparando o Tesouro Prefixado e o Tesouro Selic (título cuja rentabilidade acompanha a da taxa Selic).

1. A taxa de juros cai para 9% (conforme a expectativa de mercado)

Neste caso, o mercado já precificou a queda dos juros. A rentabilidade do Tesouro Selic tende a ficar próxima a do Tesouro Prefixado.

2. A taxa de juros cai para 8% (mais do que o mercado previa)

O investimento em um prefixado supera o retorno de uma aplicação em Tesouro Selic.

Se a pessoa que tem o prefixado tentar vender o título antes do vencimento, pode ganhar ainda mais que o esperado, por causa da marcação a mercado.

3. A taxa de juros cai para 10% (menos do que o mercado previa)

O Tesouro Prefixado teria um retorno inferior ao do Tesouro Selic.

Se o investidor que tem um Tesouro Prefixado precisar se desfazer do título antes do vencimento, seu título valerá menos no mercado e ele sofrerá com essa queda no preço.

4. Juros sobe para 14% (o que o mercado não previa!)

Esse seria um cenário improvável - ainda que possível! É um exemplo que nos ajuda a pensar que, no fim das contas, o mercado é imprevisível.

Nesse cenário improvável, o Tesouro Prefixado teria um retorno muito inferior ao do Tesouro Selic.

O título prefixado passaria a valer ainda menos no mercado secundário, caso o investidor precisar se desfazer do ativo antes do vencimento.

A partir desses raciocínios, é possível traçar infinitos cenários para as taxas de juros.

Quais investimentos tendem a se beneficiar do juro menor

Agora que você entendeu como funciona a aplicação em prefixados, vamos falar sobre como outros tipos de ativos se comportam em um cenário de juros menores.

Esse ponto é importante, pois tem relação com o conceito da diversificação dos investimentos, que vamos abordar a seguir.

Investimentos com características essencialmente diferentes tendem a se comportar de maneira inversa dependendo da situação da economia e do mercado financeiro.

Prever exatamente qual será o desempenho de cada ativo em particular é praticamente impossível. Por causa disso, um dos conceitos mais consagrados em investimentos é o da diversificação.

Basicamente, é a ideia é que o investidor deve ter uma cesta de investimentos composta por ativos com características essencialmente diferentes. Essa segurança beneficia o resultado da carteira como um todo e reduz os riscos ao longo do tempo.

Para exemplificar, comparamos o histórico do Ibovespa com as taxas de juros futuros, que refletem a expectativa do mercado para o desempenho dos juros no futuro.

Ao calcular a correlação entre os dois ativos, encontramos uma correlação negativa. Ou seja, eles têm comportamento inverso. Quando os juros futuros caem, as ações tendem a subir.Isso acontece pois quando as taxas de juros futuros mudam, o mercado acionário reage. Quando os juros futuros sobem, fica mais atrativo investir em renda fixa do que em renda variável - e as ações tendem a se desvalorizar. E vice-versa.

Por que a diversificação é importante

Você pode estar pensando:

"-Se eu sei que as taxas de juros tendem a ter o comportamento oposto ao do Ibovespa, por que não investir em juros quando os juros sobem e em Bolsa quando a Bolsa sobe? Assim eu estaria sempre na crista da onda..."

Não é bem assim… Para esclarecer, vou falar dos motivos.

Um deles tem a relação com a ideia do "mercado precificou", que falamos anteriormente ao explicar os investimentos prefixados. Quando a projeção de juros já é de queda, isso também já pode estar refletido no preço alto das ações.

Além disso, apesar de trabalharmos com as expectativas do mercado financeiro, na prática ninguém pode saber com 100% de certeza qual será o comportamento do mercado na vida real. Nem mesmo é certeiro prever quando será o momento de virada no comportamento de um investimento. Por esse motivo, nós lidamos com cenários e as probabilidades de que eles ocorram.

Diante da incerteza, a diversificação dos investimentos entrega ao investidor segurança e controle do nível de risco corrido. Também evita que as carteiras tenham altos e baixos muito bruscos.

Na Magnetis, trabalhamos sempre com a estratégia da diversificação ao compor as carteiras de investimentos para os clientes, já a partir do mínimo de R$ 10 mil (veja como isso se reflete na nossa rentabilidade). E para diversificar de verdade, analisamos renda fixa, renda variável, mas também crédito privado e fundos multimercados.

Isso tudo permite que, ao longo do tempo, a rentabilidade seja maximizada. E é isso que todo mundo quer, não é mesmo?

Daniel Jannuzzi é economista e consultor de investimentos da Magnetis

Daniel Jannuzzi é economista e consultor de investimentos da Magnetis.

  • Frederico Maciel de Mello

    Excelente explicação, bem completa.

    • Daniel Jannuzzi

      Valeu, Frederico! Abraço.

  • luislhl

    Você fala primeiro que “a correlação entre Ibovespa e Selic é perto de zero”. Logo depois, menciona que “as taxas de juros tendem a ter o comportamento oposto ao do Ibovespa”.
    Se um tem o comportamente oposto ao outro, a correlação deve ser próxima de -1, e não perto de zero, não?

    • Daniel Jannuzzi

      Oi, @luislhl:disqus ! Bom ponto! O texto não estava 100% claro sobre isso. Quando falamos que as “as taxas de juros tendem a ter o comportamento oposto ao do Ibovespa” estamos falando das taxas de juros futuros. Ao calcular a correlação entre taxas de juros futuros (que refletem a expectativa do mercado) e Ibovespa, encontramos uma relação negativa, como você bem disse. Ou seja, têm comportamento inverso. Diferente de Selic X Ibovespa, que têm correlação perto de zero (são independentes). Ponderei e, a partir do seu comentário, achei melhor editar o texto para ficar mais claro e evitar confusões. Obrigado e abraço!