Como gavetas, um Nobel e um restaurante podem te ajudar a investir

por Malena Oliveira

Imagine que você guarda R$ 200 do seu salário todo mês pensando em comprar a casa própria.

Em dado momento do ano, você recebe um bônus ou alguma receita inesperada (alô, saque do FGTS inativo!). O que você faz com esse dinheiro extra?

a) Aproveita para aumentar a quantia poupada;

b) Faz uma viagem para conhecer um lugar novo ou para visitar pessoas queridas;

c) Compra presentes - para os outros ou para si;

d) Dá uma festa para reunir as pessoas que você não consegue ver há muito tempo.​


De acordo a teoria econômica clássica, a resposta mais lógica seria a primeira alternativa. Mas segundo o ganhador mais recente do prêmio Nobel de Economia, o economista americano Richard Thaler, a "contabilidade mental" que as pessoas fazem de seus recursos muitas vezes é equivocada.

Seus estudos mostram que as pessoas tendem a tomar as decisões mais cômodas para si, e não necessariamente as melhores. Em caso de uma receita inesperada, por exemplo, há uma tendência maior ao consumo do que à poupança.

O próprio Thaler afirmou, momentos após ser comunicado sobre o prêmio, que gastaria os US$ 1,26 milhão (cerca de R$ 3,5 milhões) da forma mais irracional possível.

O Nobel de Thaler colocou as Finanças Comportamentais em evidência. Para entender como aproveitar esse conhecimento na hora de investir, entrevistamos a professora Claudia Yoshinaga, do Centro de Estudos em Finanças da FGV.

Ela estuda o tema há 15 anos e mostra como o conceito de "gavetas mentais" pode ser aplicado ao nosso dia a dia enquanto investidores.

Perfil: Claudia Emiko Yoshinaga

perfil professora claudia yoshinaga

Professora da FGV e da Fecap, Claudia Yoshinaga é doutora em Finanças pela USP e estuda Finanças Comportamentais há 15 anos.

Em sua tese de doutorado, ela buscou entender a influência da expectativa do mercado sobre o preço de ações de empresas brasileiras

Atualmente, faz parte de um grupo de pesquisadores que trabalha em replicar no Brasil um experimento do professor de Psicologia e Economia Comportamental Dan Ariely, que mostrou de que forma as pessoas são suscetíveis a mentiras e à corrupção. O tema, inclusive, deu origem ao documentário (Dis)Honesty - The Truth About Lies.

Blog da Magnetis - Como os estudos de Thaler podem ajudar as pessoas a investir melhor?

Profa. Claudia Yoshinaga - A contribuição de Richard Thaler, assim como a de outros ganhadores do Nobel que estudaram economia comportamental (como Robert Shiller e Daniel Kahneman), é justamente evidenciar o quanto nosso comportamento está longe do previsto na hora de lidar com dinheiro.

Richard Thaler

O economista Richard Thaler

De Thaler, temos a ideia da racionalidade limitada, segundo a qual as pessoas trabalham com a ideia de separar o dinheiro em "gavetas mentais" diferentes.

Isso pode ter consequências não tão boas do ponto de vista de gestão do patrimônio quando, por exemplo, uma pessoa está devendo no cheque especial, mas investe o dinheiro que sobra na poupança. Não faz sentido ter uma dívida com uma taxa de juros muito maior do que a paga em um investimento.

MAG - Por falar na poupança, isso explica porque, mesmo sabendo que não terão a melhor rentabilidade, as pessoas ainda investem nela?

CY - Os estudos de Thaler podem explicar isso em parte, mas outro efeito importante é o da falta de conhecimento financeiro aliada ao excesso de opções de investimento disponíveis.

Estudos já documentaram que quando uma pessoa tem que escolher entre muitas opções, ela geralmente fica paralisada. É o chamado paradoxo da escolha.

Um desses experimentos foi feito com geleia. A propensão à escolha era muito maior quando as opções eram reduzidas, indo de mais de uma dezena para apenas três ou quatro.

Aplicada aos investimentos, essa lógica nos diz que a variedade de opções torna o processo de decisão mais complicado.

MAG - E os pontos positivos dessa diversidade de opções?

CY - Se tentarmos racionalizar esse processo, a diversidade de opções pode tornar as escolhas melhores, sem dúvida. A grande questão é superar a barreira do conhecimento.

Se uma das contribuições de Thaler é mostrar que as pessoas têm o hábito de compartimentalizar o dinheiro em "gavetas mentais", talvez uma das coisas boas para incorporar ao processo de investir melhor seja buscar investimentos compatíveis com cada uma dessas gavetas.

No caso de um investimento para a aposentadoria, por exemplo, a exposição ao risco deve ser diferente de um investimento para uma viagem de férias ao exterior.

Enquanto no primeiro caso, é preciso preservar o poder de compra do dinheiro, e assim buscar ativos relacionados à inflação, no segundo caso pode-se até cogitar investimentos que protejam contra a variação cambial.

O fato é que é possível empregar essa metodologia de contabilidade mental para melhorar investimentos.

MAG - Mas se escolher um investimento já é um processo difícil, como fica a diversificação?

CY - Diversificar não é uma lógica fácil e o investidor comum pode fazer uma diversificação ingênua. Uma pessoa que queira investir em cinco ativos diferentes, por exemplo, vai intuitivamente distribuir 20% de seu dinheiro para cada aplicação, sem se preocupar com a correlação entre esses ativos.

Um estudo que publiquei recentemente analisou o comportamento de investidores que trabalham em empresas com ações na Bolsa. Diferente dos demais, eles têm mais predisposição a investir em papéis da empresa em que trabalham.

Isso não é racional do ponto de vista da diversificação, uma vez que não é ideal concentrar seus investimentos na empresa que paga o seu salário.

No caso de quem delega essa responsabilidade a um gestor de recursos, é papel dele fazer o investidor pensar no nível de risco que ele quer correr. Também é papel do gestor escolher os ativos mais compatíveis com esse nível de risco.

MAG - Como as fintechs podem ajudar nesse processo?

CY - As fintechs têm o apelo de facilitar a relação das pessoas com os investimentos. Hoje em dia, todo mundo tem acesso a um smartphone e investir se tornou um processo mais simples.

Antigamente, era preciso ir ao banco ou pelo menos ligar para o gerente para fazer uma aplicação. Também era comum a ideia de que investimento era só para quem tem muito dinheiro, pessoas muito sofisticadas.

Hoje, o acesso a esses produtos ficou mais simples e a oferta aumentou. Perceba, não é mais preciso ser cliente de um banco para ter acesso a seus produtos.

Especificamente sobre robôs de investimento, a automatização ajuda as pessoas a pouparem seu tempo ao tomarem decisões mais rapidamente. Mas sempre é importante discutir como se dá o processo de escolha de ativos por trás dessa automatização e o quanto ele é livre de algum viés.

E se investir fosse como ir a um restaurante?

Antes de receber o Nobel de Economia, Richard Thaler deu uma entrevista ao site americano Market Watch falando sobre a melhor estratégia para investir.

Para ele, o melhor a fazer, principalmente quando os mercados estão em queda, é se desligar das notícias e delegar a gestão de seus investimentos. Nas palavras dele, é como “deixar o chef do restaurante decidir sobre como cozinhar a sua comida”.

E se investir fosse como comer em um restaurante?

Thaler comparou investir a comer em um restaurante

Os fundos são um exemplo de “restaurante dos investimentos”. Neles, um gestor toma decisões sobre em quais ativos aplicar e isso se reflete diretamente na rentabilidade dos cotistas de seu fundo.

Aqui na Magnetis, empregamos uma metodologia também premiada para gerir as carteiras de nossos clientes: a Teoria Moderna do Portfólio. Ela foi aprimorada pelo economista americano Harry Markowitz, da Universidade de Chicago, que também ganhou, em 1990, um Nobel de Economia por essa contribuição.

Com base nesse método, criamos algoritmos e monitoramos constantemente informações de mercado para automatizar as decisões de investimento de nossos clientes. Os resultados dessa estratégia são carteiras diversificadas, que oferecem a melhor rentabilidade, com o menor risco e o melhor custo para cada perfil de investidor.

Quer saber mais sobre como nosso método funciona? Publicamos um artigo em nosso blog com todos os detalhes dessa teoria.

Luciano

Malena Oliveira é jornalista especializada em Finanças Pessoais e redatora na Magnetis.

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