Recebi meu décimo terceiro. Devo investir ou quitar dívidas?

por Mariana Congo

Virada de ano é época de muito gasto, todo mundo sabe. Festas, trocas de presentes, viagens… Mas, para boa parte das pessoas, é também um período de maiores entradas de dinheiro. Isso porque os trabalhadores formais, que trabalham com carteira assinada, recebem o décimo terceiro salário. Há ainda os mais sortudos, que ganham até décimo quarto salário ou bônus por bom desempenho no trabalho.

Com um volume adicional de dinheiro sobrando, é comum que surja uma dúvida: o que fazer com esses recursos? A mídia começa a divulgar a possibilidade de maior estímulo ao consumo com a injeção de bilhões de reais em circulação na economia. Vale destacar que acabamos de passar pela chamada Black Friday, que prometia ótimos descontos. Então como fazer o melhor uso desse dinheiro?


Primeiro de tudo, não gastar. Como se trata de um “extra”, o mais indicado é não incorporá-lo ao orçamento. A dica é restringir as despesas de Natal, Réveillon e férias escolares ao que couber no salário regular e dar a esse extra outro destino mais nobre. Que destino? Investir ou quitar dívidas? Continue lendo e descubra o que fazer:


Quitar dívidas

Para quem está endividado, o que parece ser o mais lógico é destinar o décimo terceiro salário para quitar ou pelo menos amortizar suas dívidas. No geral, sim. Mas não é em 100% dos casos que esta é uma opção adequada. Manter a dívida e optar pelo investimento faz sentido quando o rendimento líquido (descontados impostos e taxas) da aplicação é superior ao custo do endividamento. Nesse custo, entram juros, tarifas, impostos e também outros encargos, como seguros exigidos para cobrir muitos dos bens financiados.

Em resumo, se o saldo dessa conta simples for positivo, vale a pena investir e continuar pagando as parcelas da dívida.No entanto, o que costuma acontecer é justamente o contrário. No Brasil, o custo dos empréstimos em geral é maior que o retorno dos investimentos, principalmente para investimentos de baixo risco. Consequentemente, quitar os débitos acaba sendo melhor negócio.

Para ficar mais claro, vamos considerar dois exemplos para mostrar isso na prática:


Suzana comprou um carro financiado em 60 meses, com juros de 1,5% ao mês. Isso sem falar nas taxas que pagou para contratar a operação e no seguro exigido do bem. Como dificilmente Suzana conseguiria obter um retorno acima de 1% ao mês em uma aplicação, a não ser que corresse riscos relativamente altos, o melhor para ela seria quitar ou amortizar a dívida.

Ricardo, por outro lado, tem um imóvel financiado num programa de habitação popular, a juros subsidiados de 5% ao ano. Para ele, praticamente qualquer investimento é melhor alternativa do que reduzir o endividamento. Até mesmo a poupança, conhecida pelos baixíssimos retornos. Ou seja, no caso de Ricardo, seria melhor investir porque ele facilmente conseguiria um rendimento maior do que 5% ao ano em vários tipos de investimento.

Mas isso não significa que ele não deva pagar sua dívida, ele deve continuar pagando normalmente porque a dívida já faz parte das suas despesas. Ele não deve incorporar o décimo terceiro ao orçamento, mas sim enxergar com um valor separado e pode dar um destino melhor ao recurso.


A decisão de quitar dívidas também deve ser avaliada a partir de um fator fundamental: qual é o tipo da dívida. Como vimos nos exemplos de Suzana e Ricardo, em que ambos tinham financiamentos mais de longo prazo de categorias diferentes, para um compensava investir e para o outro quitar ou amortizar a dívida. Porém, em casos de dívidas mais caras é estratégico utilizar o décimo terceiro para quitá-las.


Os dois maiores exemplos são o cartão de crédito e cheque especial, ambas modalidades que têm maiores juros, que podem ultrapassar 10% ao mês, o que pode tornar a sua dívida cada vez maior. Se você despriorizar esse pagamentos, essas dívidas podem se tornar uma verdadeira "bola de neve". Por isso, caso você tenha dívidas desse tipo, o melhor a se fazer é tentar se livrar delas o quanto antes.

Criar uma reserva de emergência

Essa conta que mostramos, que comprar o retorno de investimentos com o juro cobrado em uma dívida, é o principal critério para a decisão entre investir ou quitar uma dívida. Mas não é o único. É preciso ponderar também fatores como a existência de uma reserva financeira para emergências, que, no geral, deve ter valor equivalente a três a seis salários.

Voltemos ao exemplo da Suzana. O mais indicado para ela parece ser quitar a dívida, como já observamos. Entretanto, se ela ainda não tiver um "colchão" que lhe garanta tranquilidade financeira em caso de eventualidades, como uma perda de emprego, é importante que use o dinheiro recebido (ou ao menos parte dele) para dar início a um fundo com essa finalidade, a chamada reserva de emergência.


As aplicações mais indicadas para serem utilizadas como sua reserva de emergência são as que têm maior liquidez, ou seja, podem ser facilmente resgatadas quando você precisar. A poupança é o preferida da maioria das pessoas pela sua facilidade de resgate, mas também existem outros investimentos que têm a mesma característica e apresentam rentabilidade maior, como é o caso de títulos do Tesouro Direto (Tesouro Selic) e fundos DI, desde que tenham taxa de administração menor que 1% ao ano.


Neste caso, colocando seu dinheiro nestas aplicações você fica mais tranquilo quando surge alguma eventualidade que demande um gasto inesperado. Vale lembrar que em breve estaremos em 2018 e sempre no começo do ano há várias contas previstas como IPTU, IPVA, matrícula dos filhos, etc. Então, planejar o uso do décimo terceiro para ajudar nestes gastos já previstos pode ser também uma ótima opção.


Investir

Para quem está com as contas todas em dia, não tem nenhum financiamento e já formou sua reserva de emergência, essa é uma grande chance de iniciar ou engrossar uma aplicação financeira que ajude a garantir um futuro mais tranquilo e a realização de sonhos. Se você já tem investimentos, pode utilizar o décimo terceiro salário para realizar aplicações adicionais.


É importante lembrar que em investimentos sempre é importante diversificar, então buscar aplicar em diferentes aplicações com características diferentes é uma das melhores formas de se proteger contras possíveis riscos. Porém, mais importante que diversificar é apostar em investimentos que estejam alinhados ao seu perfil e seus objetivos.


Caso você tenha vários objetivos, como já mostramos aqui no blog, você também pode separar os seus investimentos em “gavetas mentais” e investir uma quantia para a compra da casa própria, outra para a educação dos filhos e outra para a aposentadoria, por exemplo.

Mas o mais importante é que, apesar de qualquer dica você consiga avaliar o que faz mais sentido para que você, e qual a sua situação financeira para que possa decidir como utilizar o seu décimo terceiro da melhor forma possível.


Leia também: Qual o melhor investimento para 2018?

Mariana Congo é Gerente de Conteúdo da Magnetis e jornalista especializada em finanças pessoais.

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