Como a atual queda dos juros impacta a rentabilidade da poupança

por Fernando Reis

Se você ainda tem investimento em poupança ou conhece alguém que tem, fique atento a este texto pois ele pode impactar diretamente você.

Na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) a Selic baixou de 9,25% ao ano para 8,25% ao ano.

E por que isso é importante?

A queda da taxa de juros da economia impacta diretamente alguns investimentos de renda fixa que são indexados a ela, como Tesouro Direto (Tesouro Selic) e a poupança. Neste mês o impacto será sentido mais fortemente, porque como a Selic chegou abaixo de 8,5% ao ano, foi acionada a “nova regra” de cálculo da poupança. Definida em 2012, ela deixará esta opção de investimento com uma rentabilidade ainda pior do que a já praticada hoje.



O eterno mito da poupança

A poupança, historicamente, é a aplicação financeira mais tradicional do país. Segundo dados do Banco Central, existem 135 milhões de contas-poupança em um país com 207 milhões de pessoas. Dessas milhões de contas, 70% têm saldo de menos de R$ 500 e 7,8% delas têm mais de R$ 10 mil depositados.

Ainda que a poupança seja o tipo de investimento menos recomendável e rentável, continua atraindo as pessoas, pela facilidade de investir, baixo valor mínimo de aplicação, liquidez imediata e isenção de impostos. Embora estes fatores possam parecer atrativos, um dos principais motivos que tornam a poupança o investimento mais escolhido é principalmente a falta de informação.

Sim, é verdade!  Afinal, por que alguém investiria em algo, mesmo sabendo que poderia ter mais rendimento em outras aplicações igualmente seguras? De fato, muitas pessoas não possuem conhecimento sobre outros tipos de investimentos, têm dúvidas de como investir ou acham que para investir é preciso aplicações iniciais de alto valor, limitando o acesso a apenas pessoas com mais dinheiro.

Sabemos que isto não é verdade! Com apenas R$ 30 já é possível investir no Tesouro Direto, por exemplo, e obter retornos maiores que da poupança. Infelizmente, muitas pessoas estão presas a comodidade da poupança, obtendo retornos baixíssimos, quando poderiam estar obtendo melhores rendimentos em outras aplicações.

Como funcionam as regras de rentabilidade da poupança

Ainda que seja ruim, a poupança tem um rendimento. Só que agora ele fica ainda mais baixo com a Selic menor que 8,5% ao ano. Entenda o porquê:

A caderneta de poupança é um investimento de renda fixa. Ou seja, a rentabilidade da aplicação é previamente definida, não sofrendo alteração. A regra geral de cálculo dos ganhos da poupança é:

0,5% ao mês (6,17% ao ano) + TR (taxa referencial)*

*Taxa Referencial: Também conhecida apenas como TR, é uma taxa de juros de referência, criada no início da década de 1990, ainda durante o governo Collor, com o objetivo de controlar a inflação. Hoje em dia é utilizada para calcular o rendimento de vários investimentos, tais como títulos públicos, caderneta de poupança, entre outros. É calculada pelo Banco Central do Brasil, tendo como base a taxa média mensal ponderada e ajustada dos CDBs prefixados das trinta maiores instituições financeiras do país, retirando-se as duas menores e as duas maiores taxas médias.

No entanto, desde 2012, foi criada uma regra em que o rendimento da poupança passa a acompanhar diretamente a variação da taxa Selic. Você não sabia ou não se lembrava desta regra? Continue lendo e descubra se ela pode afetar você.

Nova regra de cálculo da poupança

Em maio de 2012, durante o governo Dilma Rousseff, foram feitas mudanças, por lei, na forma de cálculo da rentabilidade da poupança. Grande parte deste esforço do governo junto ao Banco Central visava evitar uma possível fuga de recursos de fundos de investimento para a poupança. Na época a Selic estava em 9% ao ano e havia a expectativa e queda para 8,5% ao ano. Nesse patamar, a poupança então passaria a render mais que os fundos de investimento.

Os fundos de investimento em renda fixa, por sua vez, são compradores de títulos públicos federais e portanto os principais financiadores da dívida pública. Caso os investidores deixassem de aplicar neles, o governo enfrentaria sérias dificuldades para rolar a dívida pública.

Como a poupança passou a remunerar:

Regra da Poupança

Como isso afeta as aplicações que você já tem na poupança?

A regra que acompanha a Selic, só vale para depósitos realizados e contas abertas a partir de 4 de maio de 2012. Para os depósitos que já estavam aplicados até 3 de maio de 2012 fica mantida a antiga regra geral: 0,5% ao mês (6,17% ao ano) + TR.

Por exemplo:

Em 3 de maio de 2012, uma pessoa tinha R$ 10 mil aplicados na poupança

No dia 4 de maio de 2012, a mesma pessoa depositou R$ 1 mil

R$ 10 mil utilizarão a regra antiga de 0,5% ao mês (6,17% ao ano) + TR

R$ 1 mil utilizarão a regra de variação da Selic, rendendo o mesmo que antes, se a Selic estiver acima de 8,5% ao ano ou 70% da Selic + TR se estiver igual ou abaixo de 8,5% ao ano.

Ou seja, quem já tinha dinheiro aplicado antes da criação da regra em maio de 2012, não precisa se preocupar, pois continuará com a mesma regra de rendimento independentemente da variação da taxa Selic. Já todos os novos depósitos deverão utilizar a regra criada em 2012.

Se você realizar um depósito hoje, por exemplo, estará sujeito à nova regra, que acompanha a variação da Selic.

Como identificar Poupança Velha X Poupança Nova

Como forma de identificar qual percentual da aplicação rende de acordo com qual regra, foi estabelecido por lei que os demonstrativos de movimentação da conta de poupança deixassem claro ao titular da conta, de modo visível, preciso e de fácil entendimento, os saldos segregados.

Assim, os bancos criaram códigos que discriminam o que é “poupança velha” e “ poupança nova”. Na cartilha de poupança do Banco do Brasil, por exemplo, estão definidas as variações para as diferentes modalidades existentes:

Cartilha Poupança Banco do Brasil

Fonte: Banco do Brasil - Cartilha de Poupança

“O último suspiro da poupança”

Ainda em 2012, depois de sancionada a lei da nova regra da poupança, a inflação voltou a ficar elevada. Desta forma novamente o Banco Central teve que aumentar a taxa de juros, e voltou a ser praticada a antiga regra geral de 0,5% ao mês mais TR.

Pelos anos seguintes, por muito tempo a rentabilidade da poupança sempre esteve abaixo da inflação, ou seja quem mantinha aplicado estava na verdade “perdendo dinheiro”. 

Como isto pode ser possível?

Com um rendimento abaixo da inflação o dinheiro da poupança tinha “menos valor”, diminuindo o poder de compra.

Contudo, este ano tem acontecido o cenário inverso. Com uma inflação menor, a poupança, embora ainda tenha rendimento bem abaixo de outros investimentos de renda fixa, passou a render acima da inflação. O ganho real foi recorde nos últimos 11 anos. De janeiro a julho deste ano, teve um rendimento de 2,79% acima da inflação. Em alguns casos, a poupança estava até rendendo mais que alguns fundos de renda fixa. Fundos com taxa de administração de 1% ao ano ​já​ ​perdem para​ ​a​ ​poupança​ ​na​ ​maior​ ​parte​ ​dos​ ​cenários.

Isso até pode parecer interessante, considerando as vantagens conhecidas deste investimento - como liquidez imediata, garantia do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e isenção de impostos frente a outros investimentos, como fundos DI que embora também tenham liquidez imediata, não têm garantia do FGC e cobram taxas de administração.

No entanto, não podemos nos enganar!

No final do mês passado tivemos um hangout com André Massaro, especialista em finanças, sobre o tema: “Ainda vale a pena investir em Renda Fixa?”. Este assunto surgiu justamente em virtude do atual cenário de queda de juros, em que muitas pessoas não tem certeza quais investimentos ainda são vantajosos.

Durante a conversa surgiu o tópico de que como ficaria a poupança neste cenário. Segundo Massaro, embora a poupança pareça que tenha voltado a ser vantajosa, este efeito seria apenas uma espécie de “rali de alta”, como ocorre na Bolsa de Valores.

E o que significa "rali de alta"? É a situação em que as ações atingem o auge e parecem estar com uma rentabilidade incrível, quando na verdade estão a beira do seu pior momento. Recentemente, isso aconteceu antes do impeachment de Dilma Rousseff, o chamado “rali do impeachment”.

Ou seja, nas palavras de Massaro, a poupança está de fato vivendo seu último suspiro. Com a inflação controlada abaixo do centro de meta de 4,5% ao ano, cada vez mais cortes na Selic são previstos e a rentabilidade da poupança será proporcionalmente diminuída considerando o acionamento da regra definida.

A poupança, que já é um investimento bem ruim atualmente, com um rendimento pífio se comparado aos demais produtos de investimento disponíveis, ficará ainda pior. Analistas de mercado estimam que até o final de 2017, a Selic possa chegar a 7,25%, o que faria com que a rentabilidade da poupança chegasse a apenas 5,07% ao ano!

Agora que você entendeu como a queda da Selic pode impactar a rentabilidade da poupança, se quiser descobrir outros investimentos, que oferecem maior rentabilidade e mesma segurança confira o nosso Guia Completo de Renda Fixa.

Fernando Reis é administrador e Analista de Marketing de Conteúdo da Magnetis.