Rentabilidade real nos investimentos: entenda o termo e o que ele implica hoje

por Fernando Reis | 27/10/2017

rentabilidade real nos investimentos

A recente trajetória de queda na taxa básica de juros da economia tem causado muitas dúvidas nos investidores brasileiros, muito acostumados a aplicações vinculadas ao rendimento do CDI. Com rentabilidades cada vez menores na renda fixa, para quais aplicações financeiras devem ser direcionados os recursos poupados?

Aqui no blog já publicamos um artigo sobre onde investir com a queda da Selic, em que esclarecemos quais investimentos tendem a se beneficiar dos juros menores. No entanto, há um conceito importante que também precisa ser levado em consideração nessa análise: a rentabilidade real nos investimentos.

Neste artigo, vamos mostrar o que é a rentabilidade real nos investimentos, como ela é calculada, e qual sua relação com a taxa de inflação. Além disso, vamos explicar como a rentabilidade real deve ser considerada na avaliação dos investimentos, especialmente no cenário econômico atual. Confira!

O que significa rentabilidade real nos investimentos?

Quando falamos que determinada aplicação financeira rendeu 10% no último ano, quase sempre estamos nos referindo à sua rentabilidade nominal — isto é, à sua taxa de retorno bruta, antes de qualquer tipo de desconto. Os investidores mais atentos sabem que é preciso descontar os custos e impostos que incidem sobre os rendimentos; ou seja, entendem que o que realmente interessa é a rentabilidade líquida.

No entanto, além dos custos operacionais, administrativos e dos impostos, é preciso considerar também o efeito da inflação. O conceito de rentabilidade real é justamente este: a remuneração líquida obtida por um determinado investimento acima da inflação do período.

Por que é preciso descontar a inflação?

A inflação, como provavelmente você já sabe, representa um aumento geral no nível de preços da economia em um determinado período de tempo. Isto significa que, quando há inflação, uma mesma quantidade de dinheiro passa a comprar menos produtos e serviços do que em um momento anterior. Em outras palavras, a inflação representa a perda de poder de compra do dinheiro naquele período.

Como o objetivo principal da maioria dos investidores ao acumular patrimônio é assegurar a estabilidade do seu padrão de vida no futuro, sua primeira preocupação deve ser garantir ao menos a manutenção do poder de compra dos recursos aplicados. Assim, a rentabilidade de seus investimentos deve, no mínimo, recuperar o valor perdido para a inflação.

Ainda que em 2017 a inflação esteja sob controle, por causa do histórico de altos níveis de inflação no país, não é raro termos períodos em que os rendimentos das aplicações não são suficientes para superar a taxa de inflação. Para ter certeza de que esse patamar mínimo de remuneração está sendo atingido, o investidor deve manter um acompanhamento atento da rentabilidade real nos investimentos que compõem a sua carteira.

Como calcular a rentabilidade real de um investimento?

Conforme dissemos anteriormente, a rentabilidade real é o rendimento do investimento que supera a taxa de inflação em um determinado período. Com base nessa definição, muitas pessoas utilizam um cálculo simplificado para encontrar essa taxa, apenas diminuindo o valor da inflação da rentabilidade bruta do investimento. Dessa forma, caso uma aplicação tenha rendido 10% em um ano em que a inflação foi de 6%, a rentabilidade real seria de 4%.

No entanto, esse cálculo simplificado não é correto. A fórmula certa para calcular a rentabilidade real é a seguinte:

Aplicando essa fórmula no mesmo exemplo do parágrafo anterior, a rentabilidade real seria de:

Você pode notar que para valores relativamente pequenos a diferença não é tão significativa, o que torna o cálculo simplificado uma aproximação razoável. Porém, para períodos de inflação alta, ou quando estão sendo consideradas janelas de tempo maiores, o uso da fórmula mais precisa é recomendado.

Um exemplo extremo pode ser buscado em 1993, antes do Plano Real estabilizar a inflação a níveis mais baixos. Neste ano, a poupança apresentou a inacreditável valorização nominal de 2.699,91%. Porém, esse desempenho fica bem menos impressionante quando descobrimos qual foi a inflação no período: 2.477,15%. Isso resulta em um rendimento real de cerca de 8,64%. Neste caso, fica evidente que o cálculo simplificado pode passar longe da realidade.

Como fica a rentabilidade real no cenário econômico atual?

As seguidas quedas na taxa Selic têm resultado na redução cada vez maior da remuneração bruta das aplicações financeiras de renda fixa mais populares entre os investidores brasileiros. Mas não ocorre necessariamente o mesmo com a rentabilidade real nos investimentos, já que a taxa de inflação também vem apresentando uma redução significativa ao longo dos últimos meses. E isso não é mera coincidência.

O Sistema de Metas e a inflação

O Banco Central do Brasil adota, desde 1999, um Sistema de Metas de Inflação para controle do nível de preços da economia. Esse tipo de sistema se baseia na ideia de que a taxa de inflação está diretamente ligada ao crescimento da economia: quando o PIB cresce, mais produtos e serviços são demandados, o que causa um aumento nos preços no curto prazo.

Para controlar esse efeito inflacionário, o Banco Central intervém no mercado para aumentar as taxas de juros, tornando o crédito mais caro e os investimentos mais atrativos. Isso acaba reduzindo a demanda e provocando um desaquecimento na economia, com reflexo sobre os preços.

Já quando a economia vai mal, normalmente a inflação também perde força. Isso permite que o Banco Central diminua as taxas de juros, incentivando o crescimento econômico sem que o nível de preços seja afetado. Você pode perceber que é exatamente o vem ocorrendo no Brasil nos últimos tempos.

Essa relação dinâmica entre a taxa Selic e a inflação tem reflexo direto sobre a rentabilidade real nos investimentos. É importante ficar atento!

A recente queda da Selic e a rentabilidade real

Vejamos o que aconteceu recentemente no país: ao final de 2015, a taxa Selic estava em 14,25% ao ano, seu patamar mais alto desde 2006; em contrapartida, a inflação ultrapassou pela primeira vez os 10% desde o ano de 2002, atingindo 10,67%. A rentabilidade real acumulada em 2015 de uma aplicação atrelada ao CDI foi de aproximadamente 2,53% ao ano (considerando que a Selic média foi de 13,47% no ano).

Desde então, a inflação começou a ceder rapidamente, permitindo que o Banco Central reduzisse a taxa de juros. No entanto, como a queda da inflação até o momento foi mais intensa do que a queda na Selic, a rentabilidade real apresentou um grande crescimento, chegando ao ápice em junho de 2017, quando atingiu 9,71% no acumulado dos 12 meses anteriores.

Por fim, vale uma observação sobre as taxas usadas no cálculo da rentabilidade real. Como a Selic é definida para o período à frente, e a inflação refere-se ao período já encerrado, é preciso ter cuidado ao compará-las. Por exemplo, a Selic vigente em agosto de 2017 era de 9,25% ao ano, e a inflação acumulada em 12 meses foi de 2,45%. O cálculo da taxa real com esses dados teria como resultado uma taxa de 6,64% ao ano.

No entanto, esse resultado não está correto. O certo seria comparar a inflação e a rentabilidade bruta acumuladas nos últimos 12 meses, o que resultaria em uma taxa real de 9,54%; ou, alternativamente, comparar a Selic vigente com a expectativa de inflação para o período à frente (aproximadamente 4%), o que dá uma taxa de cerca de 5% real.

Por esse motivo, ao avaliar as opções de investimento disponíveis, você sempre deve considerar qual é a perspectiva futura de rentabilidade real de cada aplicação, a partir das projeções de rendimentos e da inflação. A análise da rentabilidade passada é importante, mas não serve de guia para novas decisões de investimento.

Como você pode perceber, é preciso ficar sempre atento às mudanças no cenário econômico, pois elas têm um grande efeito sobre a rentabilidade real nos investimentos. A inflação corrói o poder de compra ao longo do tempo, por isso buscar a preservação de seu patrimônio é uma condição fundamental para que o investidor possa atingir seus objetivos financeiros de longo prazo, como a aposentadoria ou o crescimento da família.

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Fernando Reis é administrador e Analista de Marketing de Conteúdo da Magnetis.

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