Spread bancário — entenda como ele afeta seus investimentos

por Mariana Congo

Com o movimento recente de contínuas quedas na taxa Selic, uma antiga controvérsia do mercado financeiro brasileiro tem voltado à tona: por que a diferença entre a taxa de juros dos empréstimos e a taxa paga pelos bancos é tão grande no Brasil?

Essa diferença, conhecida como spread bancário, tem grande impacto sobre a eficiência, a produtividade e o crescimento da economia do país, afetando a vida de todos os brasileiros. Os altos níveis de spread são muitas vezes apontados como um dos principais obstáculos à maior expansão e democratização do crédito, sendo por isso um limitador do desenvolvimento econômico brasileiro.

Neste artigo, vamos explicar o que é o spread bancário, como ele é formado e qual sua relação com a taxa básica de juros. Para descobrir como o spread bancário afeta seus investimentos, continue a leitura!

Entendendo a intermediação financeira e o spread bancário

Para entendermos melhor o que é o spread bancário, vale a pena analisarmos primeiro como funciona o negócio de intermediação financeira, ou seja, como é a operação básica dos bancos e demais instituições financeiras. Pode parecer surpreendente, mas os bancos atuam de maneira muito parecida com as lojas de varejo.

Pense no funcionamento de um mercado, por exemplo: o lojista adquire produtos de diversos fabricantes e os revende ao consumidor final por um preço maior do que pagou. A diferença entre os preços de compra e de venda deve ser suficiente para que a empresa arque com todos seus custos — como aluguel e despesas da loja, salários dos funcionários, impostos — e que ainda sobre algum lucro ao final para remunerar o empreendedor.

Isso significa que o dono do mercado não passa de um mero atravessador? É fácil perceber que não: esses estabelecimentos normalmente são encontrados em locais bem mais próximos de onde a maior parte das pessoas mora ou trabalha, ao contrário dos fabricantes dos produtos, que em geral se estabelecem em distritos industriais fora dos centros urbanos. Além disso, cada loja oferece itens de diversos fabricantes diferentes, permitindo que os consumidores economizem tempo no abastecimento de suas casas.

A atuação dos intermediários financeiros é semelhante à do lojista do exemplo acima; a principal diferença é a mercadoria com a qual atuam, que é o dinheiro. Os bancos captam recursos financeiros de quem tem capacidade de poupança (ou seja, quem tem mais dinheiro do que deseja gastar e busca um investimento), e repassam para clientes com necessidades ou projetos que demandam mais recursos do que eles dispõem no momento (ou seja, que precisam de empréstimos ou financiamentos).

Em outras palavras: quando o investidor aplica seus recursos na poupança ou em um título bancário, como CDBs, LCIs e LCAs, ele está fazendo um empréstimo para o banco. A taxa de juros paga pela instituição financeira a esse investidor é o seu custo de captação. É com esses recursos captados que o banco oferecerá linhas de crédito e empréstimos a empresas e pessoas físicas.

Justamente por promover esse encontro entre poupadores e tomadores de crédito, a atuação dos intermediários financeiros é de extrema importância para o funcionamento da economia. Sem alguém para cumprir esse papel, seria muito mais difícil que grandes projetos de investimento, como a instalação de indústrias e obras de infraestrutura, fossem concretizados.

Já os poupadores teriam muita dificuldade para encontrar veículos adequados para transferir sua renda atual para o futuro, comprometendo objetivos financeiros de longo prazo, como a aposentadoria. Além disso, provavelmente não seriam capazes de analisar adequadamente os riscos desses ativos, por não possuírem o conhecimento técnico e o acesso às informações necessários para executar essa avaliação.

Assim como faz o supermercado, a instituição financeira precisa cobrar um preço (no caso, a taxa de juros) maior do cliente final do que o que ele pagou a quem lhe forneceu os recursos na captação, para cobrir seus custos operacionais e auferir algum lucro. Essa diferença entre a taxa de juros paga na captação e a taxa cobrada pelos bancos nos empréstimos é chamada de spread bancário.

Exemplo de spread bancário

Como vimos, o spread de uma determinada operação de crédito é a diferença entre a taxa de juros final e o custo de captação desses recursos para o banco. Cada um desses componentes depende de uma série de fatores.

O custo de captação varia principalmente de acordo com o porte da instituição financeira e com a forma como os recursos são captados. Em geral, bancos de maior porte conseguem captar a taxas menores; por isso o CDB de um banco grande paga menos que o de um banco menor. Além disso, instrumentos regulados, como a poupança e as LCAs e LCIs, têm custos de captação inferiores aos dos CDBs. A conjuntura macroeconômica, principalmente as expectativas de mercado a respeito das taxas básicas de juros, também tem grande influência na definição desse custo.

Já a taxa cobrada na aplicação vai variar de acordo com o perfil do tomador do crédito e o risco de inadimplência percebido. Assim, as empresas costumam pagar taxas menores em seus empréstimos do que as pessoas físicas, muitas vezes porque são capazes de oferecer melhores garantias. Além disso, o tipo de linha de crédito também interfere na taxa cobrada pelos bancos: linhas incentivadas, como o crédito imobiliário, têm taxas menores.

Para compreender melhor como funciona o cálculo do spread bancário, vamos analisar um exemplo simplificado:

Imagine uma grande instituição financeira que consegue captar a taxas inferiores ao CDI em suas emissões de LCIs. Se pagar cerca de 85% do CDI aos investidores que adquirem seus títulos, o banco vai captar aproximadamente a 5,95% ao ano. Considerando que consiga utilizar esses recursos para oferecer um empréstimo com taxa de 22% ao ano, então o spread bancário desta operação será de 16,05 pontos percentuais (22% - 5,95% = 16,05).

Spread bancário no Brasil

No Brasil, o spread bancário é um dos maiores do mundo. Segundo dados divulgados pelo Banco Central do Brasil, o spread médio do mercado ainda se mantém acima dos 20 pontos percentuais, mesmo após a recente trajetória de queda acentuada na taxa básica de juros.

O crédito a empresas tem spread significativamente inferior ao da pessoa física: a diferença entre as taxas de captação e de aplicação é de cerca de 10 pontos percentuais para o primeiro segmento, enquanto ultrapassa 27 pontos percentuais no último.

Esse alto nível de spread é motivo de muito debate nos meios econômicos e financeiros do país. Muitos acusam os bancos brasileiros de manter margens de lucro muito acima do praticado no resto do mundo, o que seria a principal razão para o grande descolamento entre suas taxas de captação e o quanto cobram nos empréstimos oferecidos.

No entanto, o spread não é composto apenas pelo lucro da instituição financeira, mas também por impostos e encargos, além de custos administrativos. De acordo com uma análise de Fevereiro de 2017 feita pelo Banco Central, mais da metade do spread bancário no Brasil nos últimos cinco anos é explicada pela inadimplência. Os lucros respondem por um pouco menos de um quarto do spread; impostos e encargos, com cerca de 18%, e os custos administrativos (5%) completam o total.

Inadimplência e spread bancário

A razão para o risco de crédito ser tão preponderante no spread está relacionada justamente à forma de operação dos intermediários financeiros. Quando os bancos fazem operações de crédito, eles querem ter o maior nível de certeza possível de que vão receber de volta os valores emprestados, acrescidos dos juros pactuados, pois precisam desses recursos para cumprir suas obrigações com os seus depositantes e financiadores.

Como algum nível de risco sempre existirá, mesmo para os melhores clientes, os bancos embutem nas taxas de empréstimo uma parcela para cobrir esse risco de crédito, ou seja, um valor para compensar a probabilidade de não receberem integralmente o valor emprestado. Esse adicional normalmente é calculado com base no histórico de inadimplência e de recuperação das operações problemáticas, para cada tipo de produto.

Boa parte do efeito da inadimplência no spread é provocada pela dificuldade de recuperação dos créditos e execução de garantias, devido à alta insegurança jurídica e o longo trâmite para as cobranças judiciais no país. Enquanto nos Estados Unidos, por exemplo, 80% dos créditos em recuperação judicial conseguem ser recuperados, no Brasil esses processos permitem a recuperação de apenas 16% da dívida inadimplente.

Esse efeito é intensificado em momentos de crise econômica, já que as condições financeiras de muitos tomadores de empréstimos são afetadas, reduzindo sua capacidade de manter em dia seus compromissos. Isso faz com que os bancos tenham que provisionar montantes relevantes de recursos para compensar perdas com clientes inadimplentes, o que acaba se refletindo no custo do crédito.

Concentração bancária e spread

Por outro lado, o mercado bancário brasileiro é extremamente concentrado. As quatro maiores instituições financeiras detêm mais de 80% crédito concedido no país. Com isso, a concorrência fica muito reduzida, permitindo que esses grandes bancos tenham uma alta capacidade de controlar os preços nesse mercado. O resultado dessa dinâmica é que o setor bancário é uma das atividades econômicas mais lucrativas no país.

O Banco Central do Brasil tem buscado implementar medidas para reduzir o efeito da baixa concorrência no setor, principalmente por meio de ações de transparência. Na página da instituição é possível encontrar comparativos de custos efetivos totais para diversos produtos bancários, permitindo ao tomador identificar quais as instituições financeiras que oferecem as taxas mais atrativas para o tipo de operação que ele deseja obter.

O Banco Central também tem procurado facilitar a autorização para instituições estrangeiras operarem no país, buscando atrair novos competidores para o setor. No entanto, o movimento recente tem sido na direção contrária: grandes bancos internacionais, como Citibank e HSBC, encerraram suas operações de varejo no Brasil, aumentando ainda mais a concentração no mercado.

Regulação, custos operacionais e spread bancário

Parte relevante do spread bancário também pode ser explicada por questões relativas à regulação a que as instituições financeiras estão submetidas. Um dos aspectos regulatórios com mais impacto sobre o custo operacional dos bancos é a exigência da manutenção de altos níveis de depósitos compulsórios.

Os depósitos compulsórios são um mecanismo utilizado pelo Banco Central para restringir a oferta de moeda em circulação na economia, visando ao controle da inflação. Trata-se de um percentual mínimo dos recursos detidos pelas instituições financeiras que obrigatoriamente devem ser depositados junto ao Banco Central. Com isso, os bancos passam a dispor apenas de parte dos recursos captados, limitando, na prática, o volume de empréstimos oferecidos por eles.

Os valores dos depósitos compulsórios no Brasil estão entre os mais altos do mundo, chegando a 45% no caso dos depósitos à vista, enquanto na maioria dos outros países esse percentual não costuma ultrapassar 10%.

Outro fator que resulta em spreads mais altos é a existência de um volume grande de linhas de crédito com recursos direcionados, como o crédito habitacional, em que há uma limitação imposta sobre a cobrança de juros. Essa restrição pode levar os bancos a compensar o retorno inferior dessas operações por meio da exigência de uma rentabilidade maior nas operações dos segmentos livres. Esse efeito é conhecido como subsídio cruzado, já que as demais operações acabam pagando a diferença das linhas subsidiadas.

Adicionalmente, para garantir a estabilidade do setor financeiro, toda a atividade bancária é fortemente regulada. Isso implica em um alto custo de observância às normas, envolvendo um grande volume de atividades burocráticas, como o envio diário de diversos formulários e documentos. Para reduzir esse impacto, o Banco Central promoveu recentemente uma nova segmentação das instituições financeiras, simplificando as exigências para entidades de menor porte.

Por fim, vale destacar ainda que o setor é um dos campeões em passivos trabalhistas no país, em parte por conta de práticas inadequadas de recursos humanos, mas também devido à força histórica dos sindicatos bancários e à cultura litigante da justiça trabalhista brasileira. Isso tem grande relevância nos custos operacionais dos bancos, que acabam sendo repassados para o spread.

Juros e spread bancário

Como já mencionado, um dos principais fatores que influenciam o spread bancário é o nível da taxa básica de juros do país, que afeta tanto os níveis de inadimplência quanto os custos de captação. Além desses efeitos, a taxa básica de juros também pode afetar o spread por meio de um mecanismo um pouco mais complexo.

O estado brasileiro tem uma dificuldade histórica para manter seus gastos compatíveis com o volume de impostos arrecadados. Para cobrir os frequentes déficits orçamentários, o Tesouro precisa emitir títulos, o que aumenta a dívida pública. Quanto maior é o volume total da dívida, maior é a percepção de risco de um eventual calote por parte do governo, fazendo com que os agentes que vão adquirir esses títulos passem a exigir uma remuneração maior — ou seja, juros mais altos.

Esse grande volume de dívida emitido pelo Estado, a taxas bastante atrativas, acaba absorvendo a maior parte dos recursos disponíveis no mercado, inclusive aqueles intermediados pelos bancos. Isso faz com que qualquer outro tipo de aplicação, como os empréstimos para empresas ou pessoas físicas, esteja sujeito a um custo de oportunidade muito alto, refletido nos spreads maiores.

Vale ressaltar que a taxa de juros também é o instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação. Como boa parte dos empréstimos bancários têm taxas prefixadas, em momentos de instabilidade inflacionária os bancos podem buscar se proteger de um eventual aumento da taxa básica de juros por meio de um aumento nos spreads, para diminuir o efeito negativo dessa alta dos juros sobre a rentabilidade das operações.

A queda na Taxa Selic e o spread bancário

Com o recente movimento de queda da taxa Selic, é esperado que os spreads bancários também passem por um processo de redução gradual. O primeiro efeito que deve ser observado é por conta da queda da inadimplência: taxas de juros menores facilitam o pagamento e a renegociação de dívidas, diminuindo assim o componente de risco de crédito embutido no spread, bem como os níveis de provisionamento para operações inadimplentes.

Além disso, as taxas menores tornam a obtenção de empréstimos viável para mais pessoas e empresas, aumentando assim o número de operações de crédito realizadas pela instituição financeira. Com isso, os custos fixos do banco (que incluem a manutenção das agências, o pagamento de salários, as despesas com infraestrutura tecnológica, dentre outros) podem ser mais diluídos, resultando em uma contribuição menor no spread de cada operação.

Por outro lado, é possível que os bancos, para manterem seus níveis de rentabilidade atuais, tenham que aceitar um maior nível de risco em suas carteiras de crédito. Isso se refletiria em um aumento no spread médio total, apesar de não ter necessariamente efeito sobre cada operação individualmente.

Como o spread bancário afeta seus investimentos

Já deve ter ficado claro para você que o spread bancário no Brasil é muito alto e que, mesmo com as iniciativas em curso para reduzi-lo, não é esperado que ele caia em um horizonte de tempo próximo. Sabendo disso, você pode estar se perguntando: como evitar que o spread bancário atrapalhe meus investimentos?

A constante sofisticação do mercado financeiro e a evolução das soluções tecnológicas também permitem que seja possível administrar seus investimentos sem a necessidade de utilizar a maior parte dos serviços bancários. Hoje já existem diversas alternativas de instituições que atendem integralmente às necessidades de todos os perfis de investidor, e nas quais você poderá escolher onde investir seus recursos.

Uma boa alternativa são as corretoras de investimentos, plataformas que oferecem aplicações financeiras de diversas instituições diferentes — como se fossem supermercados de investimentos. Aplicando seus recursos por meio de uma corretora, o investidor encontra mais opções para diversificar sua carteira. As corretoras costumam oferecer produtos, como CDBs de bancos médios, por exemplo que diferente de grandes bancos, oferecem taxas maiores aumentando a remuneração do investidor. Isto acontece porque em bancos médios o spread costuma ser bem menor.

Porém, vale ficar atento aos custos envolvidos. Assim como os bancos, as corretoras também podem cobrar spread em alguns produtos, repassando ao investidor uma taxa de retorno menor do que a originalmente paga pela aplicação.

Um movimento recente no mercado trouxe grande destaque às corretoras com taxa zero, que adotaram campanhas de marketing agressivas para destacar a redução de seus custos operacionais. Mas como não existe almoço grátis, parte desses custos, que antes eram cobrados de forma transparente, foi transformada em spreads, menos visíveis para o investidor.

Outra opção para seus investimentos são as fintechs, empresas que prestam serviços financeiros com base em processos tecnológicos inovadores. Algumas fintechs se especializam na prestação de consultoria automatizada de investimentos: a partir da análise do perfil e dos objetivos financeiros do investidor, a empresa sugere um plano de investimento personalizado. O grande diferencial das consultorias é a ausência de conflito de interesses, problema muito comum no mercado financeiro.

Uma última sugestão para não sofrer com os efeitos negativos dos altos spreads em sua vida financeira é simplesmente evitar ao máximo contrair dívidas. Sem endividamento, você economiza toda a parcela do spread que seria paga ao banco, revertendo esses recursos para a construção de seu patrimônio.

Como você pode perceber neste artigo, são várias as razões para que a diferença entre o custo de captação dos bancos e a taxa cobrada nos empréstimos seja tão grande no Brasil. A inadimplência, a baixa concorrência no setor e os elevados custos de observância regulatória ajudam a explicar os altos spreads bancários observados no país.

A boa notícia é que o mercado financeiro já oferece alternativas interessantes para escapar dos bancos e seus altos custos. Selecionando uma boa corretora e contando com o serviço de uma consultoria de investimentos, o investidor pode obter maiores rentabilidades para suas aplicações financeiras, praticamente sem a necessidade de utilização de serviços bancários.

Agora que você já sabe como o spread bancário afeta sua vida financeira, que tal conhecer uma consultoria de investimentos que pode ajudar você a aplicar seu dinheiro de forma segura e diversificada, fugindo dos altos spreads dos bancos? Então monte gratuitamente um plano de investimento com a Magnetis, e descubra como melhorar seus rendimentos de forma simples!

Mariana Congo é Gerente de Conteúdo da Magnetis e jornalista especializada em finanças pessoais.

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